Dom Casmurro: memória, dúvida e os limites de um narrador

Publicado em 1899, *Dom Casmurro*, de Machado de Assis, é narrado por Bento Santiago, já adulto, que decide contar a própria história. Entre a infância no Rio de Janeiro, o seminário e seu relacionamento com Capitu, ele revisita acontecimentos que acredita explicar sua vida. Mas a narrativa não oferece uma janela neutra para o passado: quem seleciona, ordena e interpreta as lembranças é o próprio Bento.

Essa escolha transforma a memória no centro do romance. Bento escreve a partir do presente, com a distância e as emoções de quem já conhece os desdobramentos que narra. O que parece uma recordação espontânea pode carregar intenção; o que ele trata como prova pode refletir uma conclusão à qual chegou antes. Machado não nos entrega um árbitro confiável para resolver as lacunas. Cabe ao leitor notar de onde vêm as afirmações e o que fica sem confirmação independente.

O ciúme conduz boa parte das suspeitas de Bento, mas suspeita não é demonstração. Os acontecimentos chegam até nós filtrados pela voz dele, e a interpretação que faz de Capitu não deve ser confundida com um fato estabelecido pelo romance. Essa tensão não exige que o leitor escolha uma resposta definitiva: pode ser mais produtivo perguntar por que Bento precisa sustentar sua versão e como sua maneira de contar influencia nosso julgamento.

[Aviso: os parágrafos seguintes mencionam o desfecho.] O encerramento retoma a tentativa de Bento de dar forma à própria vida e reforça a distância entre recordar e comprovar. A incerteza que permanece não é uma falha a corrigir, mas parte do trabalho literário: o livro nos leva a examinar a voz narrativa, a força das aparências e os limites do que podemos concluir sobre outra pessoa.

Uma leitura crítica de *Dom Casmurro* pode, assim, trocar a pergunta sobre a culpa de Capitu por outras: que recursos Bento usa para conquistar a confiança de quem lê? Quais versões dos acontecimentos estão ausentes? E como nossas expectativas sobre amor, ciúme e caráter participam da interpretação? A riqueza do romance está em abrir essas questões — e em não apresentar a lembrança do narrador como sentença incontestável.

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