A Última Festa, de Lucy Foley: quando a amizade esconde segredos

Um grupo de amigos isolado em um hotel cercado pela neve. Nove pessoas entram no local para passar o Réveillon juntas, mas apenas oito sairão vivas. O problema é que, desde o início, ninguém sabe quem morreu e, principalmente, quem pode ser o assassino.

Essa é a premissa de A Última Festa, thriller psicológico de Lucy Foley lançado em 2020.

A história acompanha um grupo de nove amigos que mantém o hábito de se encontrar em datas comemorativas desde a época da faculdade. Dessa vez, eles decidem passar o Réveillon juntos em um hotel isolado nos Alpes Suíços.

O cenário, porém, está longe de ser apenas um pano de fundo.

O hotel é completamente cercado pela neve e, pouco depois da chegada do grupo, uma nevasca torna o local praticamente inacessível. Não há possibilidade de contar rapidamente com ajuda médica, hospitalar ou policial.

Eles estão isolados.

E existe um assassino entre eles.

O interessante é que a autora revela logo no início que apenas oito dos nove amigos estão vivos. Um deles está morto, mas não sabemos qual.

A narrativa é construída de maneira retrospectiva, alternando acontecimentos e perspectivas para apresentar os personagens e, ao mesmo tempo, manter o mistério sobre a identidade da vítima.

Foi justamente essa premissa que me prendeu bastante à leitura.

Quando comecei A Última Festa, eu ainda tinha pouco contato com thrillers. Foi um dos primeiros livros do gênero que li, junto com A Paciente Silenciosa, e a estrutura da história me deixou muito curiosa.

Cada capítulo apresenta a perspectiva de um personagem diferente.

Com isso, vamos conhecendo pouco a pouco os nove integrantes daquele grupo e percebendo que existe muito mais por trás daquela suposta amizade do que inicialmente parece.

Eles estão juntos há muitos anos, mas a relação entre eles é marcada por inveja, intrigas, segredos e ressentimentos.

A amizade, que inicialmente parece sólida, começa a revelar suas fragilidades.

E esse é um dos aspectos que considero mais interessantes na obra: qualquer um pode ser a vítima e qualquer um pode ser o assassino.

Você passa a desconfiar de todos.

Além do grupo de amigos, alguns funcionários do hotel também aparecem ao longo da narrativa e, em determinados momentos, parecem poder estar envolvidos nos acontecimentos. Mas a trama permanece principalmente concentrada naquele grupo.

E, conforme vamos conhecendo cada personagem, a dúvida aumenta.

Quando você sabe que um dos seus próprios amigos é capaz de cometer um assassinato, mas conhece os segredos e as fragilidades de todos eles, qualquer pessoa passa a parecer capaz de cometer o crime.

É como se o leitor fosse colocado dentro daquele grupo.

Você começa a pensar:

Fulano poderia ter feito isso por causa disso.

Depois pensa em outro personagem.

E começa novamente a mudar de hipótese.

Quando finalmente descobrimos quem é a vítima, a narrativa ganha ainda mais força. Eu, particularmente, não consegui identificar quem havia cometido o assassinato antes da revelação.

Tenho uma mania de querer descobrir o final dos livros antes de chegar até ele, mas, nesse caso, o plot funcionou muito bem para mim.

Quando a amizade revela sua fragilidade

Embora o mistério sobre quem morreu e quem matou seja o principal elemento da narrativa, A Última Festa também permite uma reflexão sobre as relações humanas.

Afinal, aquele grupo deveria ter uma amizade sólida.

São pessoas que se conhecem há muitos anos e que continuam se reunindo justamente por causa dessa história compartilhada.

Mas, conforme a narrativa avança, percebemos que aquela amizade talvez nunca tenha sido tão sólida quanto parecia.

Ela era sustentada, em grande parte, por aparências.

E essa é uma questão bastante interessante porque mostra como algumas relações podem parecer profundas por fora enquanto, internamente, são sustentadas por competição, ressentimento, inveja ou simplesmente pela necessidade de manter determinada aparência social.

O isolamento acaba funcionando como uma espécie de mecanismo que retira essas camadas.

Quando aquelas pessoas ficam presas juntas e sabem que existe um assassino entre elas, fica cada vez mais difícil manter a aparência de amizade.

Quando ignoramos os sinais

Outro tema que me chamou atenção no livro foi a questão do stalking.

Uma das personagens já havia enfrentado situações relacionadas a um perseguidor, mas inicialmente não deu tanta importância ao que estava acontecendo.

Ela acreditava que aquilo poderia estar relacionado ao fato de ser uma mulher bonita e interessante e, por isso, acabou não tratando determinados sinais com a seriedade necessária.

E isso me fez pensar em uma frase que ouvi de Beto Ribeiro: muitas vezes, a gente constrói o nosso próprio assassino.

Essa ideia ficou muito presente durante a leitura.

Não no sentido de responsabilizar a vítima pelo crime que sofreu, mas de pensar em como determinadas situações negligenciadas podem se acumular ao longo do tempo e contribuir para a construção de circunstâncias cada vez mais perigosas.

Às vezes, existem sinais que aparecem diante de nós e que não percebemos ou aos quais não damos importância.

No caso da história, essa negligência acaba ganhando uma dimensão ainda maior quando observamos toda a trajetória daquele grupo de amigos.

O isolamento como elemento do suspense

A ambientação também é fundamental para o funcionamento do thriller.

A autora enfatiza constantemente a presença da neve e a impossibilidade de sair do hotel. O grupo está literalmente preso naquele lugar.

E isso cria uma sensação de claustrofobia.

Os personagens sabem que o assassino está entre eles, mas não existe para onde fugir.

Eles começam a apontar uns para os outros, a desconfiar de cada comportamento e a reinterpretar acontecimentos anteriores.

Essa atmosfera ajuda o leitor a entrar na história porque também ficamos presos naquele ambiente.

Sabemos que alguma coisa aconteceu.

Sabemos que uma pessoa morreu.

Sabemos que o assassino está ali.

Mas não sabemos quem é.

Os pontos que me incomodaram

Apesar de ter gostado bastante da narrativa, existem alguns aspectos que me incomodaram.

O primeiro foi o excesso de ênfase no isolamento.

Entendo que a neve e a impossibilidade de sair são elementos fundamentais para construir a atmosfera do livro. Até determinado ponto, essa repetição funciona para colocar o leitor dentro daquela situação.

Porém, em alguns momentos, senti que a autora insistiu demais nessa questão. A sensação de isolamento já estava estabelecida e, ainda assim, ela continuava sendo reforçada repetidamente, o que acabou tornando algumas partes um pouco cansativas.

Outro ponto foi a construção de alguns personagens.

Existem personagens que considero extremamente caricatos, quase como se tivessem sido construídos especificamente para serem odiados pelo leitor.

E eu particularmente não gosto desse tipo de construção.

Gosto mais quando o autor desenvolve um personagem e permite que o próprio leitor decida se gosta ou não daquela pessoa.

Quando o texto praticamente coloca na nossa frente um personagem e diz que ele é chato, desagradável ou alguém de quem devemos não gostar, sinto que parte da experiência de leitura é retirada.

Prefiro personagens mais complexos, nos quais podemos formar nossa própria opinião.

Vale a pena ler?

Apesar dessas ressalvas, considero A Última Festa um thriller muito interessante.

O começo é bastante forte, o meio pode ser um pouco mais arrastado, principalmente pela repetição da questão do isolamento, mas, depois que descobrimos quem é a vítima, a narrativa volta a ganhar bastante força.

Para quem gosta de thrillers psicológicos, histórias de assassinato e narrativas construídas a partir de segredos e intrigas, considero uma boa indicação.

Também acho que é um livro interessante para quem está começando a entrar no gênero.

A estrutura de múltiplas perspectivas ajuda a criar a sensação de dúvida constante e faz com que o leitor participe da investigação junto com os personagens.

Em alguns aspectos, a leitura chegou a me lembrar Agatha Christie, principalmente pela ideia de colocar um grupo de pessoas em um ambiente isolado e fazer com que o mistério se concentre naquele pequeno círculo.

No fim, A Última Festa é uma história sobre assassinato, mas também sobre aquilo que existe por trás das relações aparentemente perfeitas.

Porque talvez a pergunta mais interessante não seja apenas quem matou?

É também:

o quanto realmente conhecemos as pessoas que estão ao nosso lado?

E, quando uma amizade é construída sobre segredos, aparências e ressentimentos, talvez seja necessário muito pouco para que aquilo que parecia sólido comece a desmoronar.

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