O lobisomem é uma das criaturas mais conhecidas do imaginário popular. Presente em diferentes culturas e atravessando séculos de histórias, o mito chegou ao Brasil com raízes ibéricas e, ao entrar em contato com as culturas indígenas e com diferentes tradições regionais, ganhou novas versões e características.
No imaginário brasileiro, porém, a figura do lobisomem está particularmente associada à Quaresma. E, por trás da criatura que se transforma durante a noite, existe uma questão que ultrapassa o folclore: o que acontece quando aquilo que reprimimos encontra uma maneira de voltar?
O homem que se transforma em fera
Nas diferentes versões brasileiras da lenda, o lobisomem costuma ser apresentado como um homem comum durante o dia. À noite, especialmente nas sextas-feiras e em noites de lua cheia, ele sofre uma transformação e se torna uma criatura animalesca, perdendo o controle sobre si mesmo.
A maldição pode assumir diferentes origens. Em algumas versões, trata-se simplesmente de um homem amaldiçoado. Em outras, a transformação está relacionada ao pecado: pensamentos considerados pecaminosos, transgressões de natureza sexual ou blasfêmias contra Deus poderiam fazer com que o homem se transformasse em uma besta.
Também existe a conhecida história do sétimo filho. Dependendo da versão, seria o sétimo menino depois de seis irmãos ou o menino nascido depois de sete meninas. A criança carregaria a maldição do lobisomem, que poderia ser rompida por meio do batismo realizado pelo primeiro filho do casal.
Há ainda uma característica particularmente interessante em algumas versões brasileiras: antes da transformação, o homem tira suas roupas. Se alguém as esconder, ele jamais conseguiria voltar à forma humana. A roupa, nesse caso, torna-se uma espécie de último vínculo com a identidade humana.
O lobisomem brasileiro não é apenas um lobo
Embora a imagem internacional mais conhecida seja a do homem que se transforma em lobo, o imaginário brasileiro apresenta criaturas muito mais diversas.
No Nordeste, por exemplo, existem versões em que o lobisomem assume características híbridas, misturando elementos humanos e animais. Ele pode aparecer como uma criatura semelhante a um cachorro ou porco gigante e peludo, sendo frequentemente associado a comportamentos extremamente animalescos, como comer galinhas ou roubar fraldas de bebês.
Essa multiplicidade de formas revela algo importante sobre o próprio mito: não existe apenas um lobisomem. Cada cultura parece construir sua própria representação daquilo que considera ameaçador, descontrolado ou difícil de domesticar.
Entre a igreja e a encruzilhada
O espaço onde ocorre a transformação também é significativo.
Nas lendas, o lobisomem pode surgir em noites de sexta-feira ou de lua cheia, mas também em cemitérios, encruzilhadas e igrejas. Esses espaços aproximam o mito de diferentes dimensões religiosas presentes no imaginário brasileiro. A igreja remete diretamente ao cristianismo e à ideia de solo sagrado, enquanto a encruzilhada estabelece uma intersecção com tradições religiosas de matriz africana.
O lobisomem, portanto, não é apenas uma criatura fantástica. Ele também carrega as marcas das culturas que ajudaram a construir o imaginário brasileiro.
E talvez seja justamente por isso que ele tenha sobrevivido tão bem ao tempo.
O lobisomem saiu do folclore e entrou no imaginário coletivo
A criatura atravessou a tradição oral e chegou aos livros, às séries e ao cinema. Obras como Um Lobisomem Americano em Londres ajudaram a consolidar visualmente a transformação do homem em lobo e marcaram a história do cinema, inclusive pelos efeitos de maquiagem utilizados para representar essa metamorfose.
Mas a permanência do lobisomem não pode ser explicada apenas pelo entretenimento.
Ele permanece porque representa algo que continua reconhecível para o ser humano: o medo de perder o controle sobre si mesmo.
É nesse ponto que o mito encontra a psicanálise.
O homem e o lobo: uma leitura psicanalítica
Na leitura freudiana apresentada no vídeo, a psique humana pode ser compreendida a partir da relação entre id, ego e superego.
O id está relacionado aos instintos, desejos e impulsos. O ego funciona como mediador entre esses impulsos e a realidade. Já o superego representa as normas, a moral e as exigências sociais e, muitas vezes, religiosas.
O lobisomem parece materializar justamente esse conflito.
Durante o dia, existe o homem socialmente apresentado: aquele que segue regras, controla seus impulsos e se enquadra nas expectativas do mundo ao redor. À noite, surge a besta.
O homem e o lobo passam, então, a representar duas dimensões em conflito.
De um lado, aquilo que a sociedade permite que seja mostrado. Do outro, aquilo que foi reprimido.
A transformação pode ser entendida, portanto, como uma representação do medo de que os instintos finalmente ultrapassem as barreiras construídas pelo controle social.
Mas existe uma segunda possibilidade, ainda mais inquietante.
E se a transformação não representar apenas um medo?
E se ela também representar um desejo?
O desejo de perder o controle
Ao longo da história, algumas pessoas chegaram a afirmar que eram lobisomens e que determinados atos violentos teriam acontecido porque, durante aquele momento, elas teriam se transformado em animais. A própria tradição brasileira preserva histórias de pessoas que afirmavam se transformar em cachorros.
Independentemente da veracidade dessas histórias, o imaginário revela uma tensão humana bastante conhecida: ao mesmo tempo em que tememos aquilo que existe dentro de nós, podemos desejar libertá-lo.
A sociedade estabelece limites. A religião estabelece limites. A moral estabelece limites. E o próprio superego passa a nos dizer o que podemos ou não fazer.
O lobo aparece justamente no lugar em que essas barreiras desaparecem.
Por alguns instantes, o homem deixa de precisar controlar aquilo que sente.
A besta pode fazer aquilo que o homem socialmente não pode.
É por isso que o lobisomem pode representar tanto o medo de sermos quem somos quanto o desejo de escapar, ainda que temporariamente, das amarras que nos foram impostas.
A noite como lugar do inconsciente
Não é por acaso que a transformação acontece durante a noite.
Nas lendas e nos contos analisados pela psicanálise, a noite pode assumir o significado simbólico daquilo que está oculto. O dia representa a clareza, aquilo que pode ser visto e reconhecido. A noite, por outro lado, guarda aquilo que não queremos mostrar.
O lobisomem pertence à noite porque aquilo que ele representa também pertence ao território do que foi escondido.
Durante o dia, existe o homem.
Durante a noite, emerge aquilo que estava reprimido.
A transformação, nesse sentido, deixa de ser apenas física. Ela se torna simbólica.
O homem não necessariamente se transforma em outra coisa.
Ele revela uma parte de si que permanecia escondida.
O que acontece com aquilo que reprimimos?
É justamente aqui que a lenda deixa de ser apenas uma história assustadora.
Porque ninguém vai, literalmente, acordar em uma noite de lua cheia transformado em lobo.
Mas aquilo que reprimimos pode encontrar outras formas de aparecer.
Na perspectiva apresentada no vídeo, aquilo que não é elaborado pode retornar como sintoma, trauma, bloqueio, repetição ou sofrimento.
O problema não está necessariamente em possuir uma “besta” dentro de si.
O problema pode estar em fingir que ela não existe.
Todos nós temos aspectos que preferimos não olhar. Desejos que consideramos inadequados. Pensamentos que julgamos inaceitáveis. Traumas que evitamos tocar. Partes de nós mesmos que foram ensinadas a permanecer escondidas.
A questão não é permitir que essa parte destrua tudo.
É aprender a reconhecê-la.
Antes do lobo, existe um homem
Talvez seja justamente essa a grande força simbólica do lobisomem.
Ele não nasce como lobo.
Existe um homem antes da transformação.
E existe uma razão para que a criatura precise aparecer.
Na leitura psicanalítica proposta, olhar para aquilo que foi reprimido não significa dar liberdade irrestrita aos impulsos. Significa compreender que aquilo que existe dentro de nós precisa ser reconhecido e trabalhado para que não se transforme em sofrimento.
A terapia pode ser justamente esse espaço de encontro com aquilo que preferimos esconder: os traumas, as dificuldades, os pensamentos considerados inadequados, as contradições e até aquilo que chamamos de nosso “lado ruim”.
Não para transformar o indivíduo em alguém perfeito.
Mas para que ele possa compreender melhor quem é.
O verdadeiro monstro talvez seja aquilo que não conseguimos elaborar
O lobisomem sobrevive porque a pergunta que ele representa continua atual.
Quanto daquilo que somos mostramos aos outros?
Quanto escondemos?
E o que acontece quando passamos tempo demais tentando controlar, negar ou esconder aquilo que sentimos?
O mito transforma esse conflito em uma criatura monstruosa: um homem que, durante a noite, perde a consciência e se transforma em uma besta.
Na vida real, porém, a transformação acontece de outras maneiras.
Pode aparecer em um sintoma. Em uma repetição. Em um bloqueio. Em uma relação destrutiva. Em um trauma que continua determinando escolhas. Em algo que emerge justamente quando acreditávamos ter conseguido esconder para sempre.
Talvez o lobisomem não seja apenas a história de um homem que vira lobo.
Talvez seja a história de todos nós quando tentamos negar que também carregamos dentro de nós desejos, medos, impulsos, feridas e contradições.
Porque, no fim, a pergunta não é apenas “o que aconteceria se eu me transformasse em uma besta?”
A pergunta talvez seja muito mais incômoda:
o que existe dentro de mim que eu tenho tanto medo de reconhecer?
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