O Sorriso da Hiena, de Gustavo Ávila, é um thriller policial que começa sem qualquer intenção de preparar o leitor para o que está por vir.
Logo na primeira página, um casal é brutalmente assassinado na frente do próprio filho.
E o autor não economiza nos detalhes.
A cena é extremamente explícita e, quando terminei aquelas primeiras páginas, confesso que fiquei alguns segundos olhando para o teto pensando no que eu estava fazendo com a minha vida e com a minha saúde mental ao escolher aquele livro.
Mas continuei.
E ainda bem.
Porque O Sorriso da Hiena foi um daqueles livros que eu simplesmente devorei.
Depois do primeiro assassinato, a história avança 24 anos e apresenta uma situação semelhante: outra família, outro assassinato e outra criança que presencia tudo.
É nesse momento que conhecemos Arthur, um dos principais personagens da história.
Arthur é um detetive de polícia autista. O autismo não compromete sua capacidade cognitiva , pelo contrário, ele é extremamente inteligente , mas influencia diretamente a maneira como ele percebe e interpreta o mundo.
Arthur é extremamente literal, não compreende ironias da mesma maneira que outras pessoas e apresenta determinados hiperfocos.
Essas características não aparecem simplesmente como um detalhe colocado no personagem. Elas fazem parte da construção de uma personalidade bastante particular e tornam Arthur um investigador muito interessante de acompanhar.
E ele vai precisar utilizar justamente essa capacidade investigativa para tentar compreender uma sequência de crimes que começa a surgir.
Depois daquele primeiro assassinato, outros crimes acontecem seguindo o mesmo modus operandi e a mesma assinatura.
Tudo indica que estamos diante de um assassino em série.
O padrão é particularmente perturbador: os pais são mortos e as crianças são deixadas vivas.
E é justamente aí que entra o segundo personagem principal da história: William.
William é um psicólogo infantil especializado em trauma.
Ele escreveu uma tese sobre o desenvolvimento humano e sobre como a construção de um adulto começa desde a primeira infância, passa pela adolescência e continua ao longo da vida.
Em outras palavras, ele estuda justamente aquilo que faz uma pessoa se tornar quem ela é.
Quando Arthur precisa lidar com a primeira criança sobrevivente, ele procura William.
A partir daí, o psicólogo passa a participar da investigação e utiliza seu conhecimento para tentar compreender o que aconteceu com aquelas crianças.
O objetivo é fazer com que elas consigam acessar, dentro dos limites possíveis, as memórias relacionadas ao acontecimento para fornecer informações que possam ajudar a polícia a encontrar o assassino.
Só que, conforme a história avança, William começa a receber uma série de e-mails extremamente suspeitos.
A pessoa que está enviando essas mensagens conhece detalhes muito específicos tanto sobre sua pesquisa quanto sobre os assassinatos.
E então surge uma possibilidade perturbadora:
será que William está trocando e-mails com o próprio assassino?
E é aqui que eu preciso parar, porque qualquer coisa além disso começa a entrar em território de spoiler.
Mas posso dizer uma coisa: O Sorriso da Hiena é um livro que consegue manter a tensão do começo ao fim.
Se você gosta de Criminal Minds ou de filmes e séries que exploram a mente criminosa, existe uma grande possibilidade de você gostar dessa história.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção é que nós não acompanhamos apenas a investigação.
A narrativa permite que o leitor entre em contato com diferentes perspectivas.
Temos a perspectiva de William, o psicólogo.
Temos a perspectiva de Arthur, o investigador.
E temos também contato com a perspectiva do próprio assassino.
Isso cria uma experiência muito interessante porque você não está apenas tentando descobrir quem está cometendo os crimes.
Você começa a pensar em por quê.
E, principalmente, começa a pensar sobre o papel que o trauma exerce na construção de uma pessoa.
O trauma pode determinar quem nós nos tornamos?
Para mim, essa foi uma das questões mais interessantes do livro.
Como terapeuta, eu não consegui ler O Sorriso da Hiena apenas como um thriller policial.
A história me fez pensar constantemente sobre o que acontece quando uma criança passa por uma situação traumática e sobre a maneira como esse trauma é conduzido posteriormente.
Porque existe uma questão fundamental:
o que acontece depois do trauma?
A forma como uma criança traumatizada é acolhida, tratada e acompanhada pode ter um papel fundamental na maneira como ela vai construir a própria vida.
E isso levanta uma discussão muito maior sobre responsabilidade.
Até que ponto uma pessoa consegue romper com um ciclo de violência do qual ela mesma foi vítima?
Até que ponto o trauma influencia aquilo que fazemos?
E, principalmente, o que acontece quando esse trauma não é elaborado?
O livro coloca essas questões de uma maneira bastante interessante porque apresenta justamente a possibilidade de uma criança traumatizada seguir caminhos completamente diferentes dependendo da maneira como aquilo é conduzido.
Ela pode conseguir construir uma vida saudável.
Ou pode repetir um ciclo de violência que começou antes dela.
E é nesse ponto que a história deixa de ser apenas uma investigação sobre um assassino e passa a provocar uma reflexão sobre a própria condição humana.
Ciência, ética e os limites da investigação
Outro aspecto que achei muito interessante é a discussão sobre ciência e estudos de caso.
Nós vivemos em uma época em que a ciência possui um peso enorme na sociedade. Em alguns momentos, parece até que ela se tornou uma espécie de autoridade absoluta.
Mas o livro nos faz pensar em uma pergunta muito importante:
quais são os limites éticos da ciência?
Todo estudo pode produzir resultados.
Todo estudo pode também apresentar efeitos colaterais.
Mas existe uma diferença gigantesca quando esses efeitos colaterais não são apenas números ou resultados estatísticos.
E se esses efeitos colaterais forem pessoas?
E se forem vidas?
E se forem mentes humanas?
É aí que a discussão se torna muito mais complexa.
E, para mim, isso conversa diretamente com a questão da terapia.
Porque não basta saber uma técnica.
Não basta conhecer uma teoria.
Existe uma responsabilidade enorme quando estamos lidando com uma pessoa traumatizada, com sua história, sua memória e sua mente.
A maneira como o terapeuta conduz esse processo pode ter consequências muito profundas.
E essa foi uma das partes do livro que mais me fez refletir sobre a própria prática terapêutica.
Um thriller que realmente provoca medo
Além de todas essas questões psicológicas, O Sorriso da Hiena continua sendo um thriller.
E um thriller bastante pesado.
Existem cenas que realmente provocam desconforto e medo.
O assassino é sorrateiro e existe uma sensação muito particular durante a leitura de que ele está sempre próximo.
Em alguns momentos, você realmente se sente observado.
E isso, para mim, é um mérito da escrita de Gustavo Ávila.
Ele consegue construir uma atmosfera que faz o leitor entrar na história e sentir a presença daquele personagem mesmo quando ele não está diretamente em cena.
A leitura é extremamente fluida e eu devorei o livro.
Inclusive, depois dessa experiência, com certeza quero ler outros livros do autor.
E o final?
Aqui eu preciso fazer uma pequena confissão.
Eu não gostei tanto do final.
E eu tenho um problema pessoal com finais de livros ,normalmente crio expectativas muito grandes e depois fico julgando o autor por não entregar exatamente aquilo que imaginei.
Foi o que aconteceu aqui.
Eu esperava um final diferente e a história tomou um caminho que não correspondeu completamente às minhas expectativas.
Por isso, não dei cinco estrelas.
Não significa, de forma alguma, que o livro seja ruim.
Muito pelo contrário.
A experiência de leitura foi excelente, eu devorei a história e fiquei extremamente envolvida com os personagens e com as questões levantadas pelo autor.
Mas, para mim, o final deixou um pouco a desejar justamente porque a história havia criado uma expectativa muito grande.
Ainda assim, isso não diminui os méritos da obra.
O Sorriso da Hiena é um thriller policial muito interessante, especialmente para quem gosta de investigação criminal, psicologia, trauma e histórias que exploram a mente humana.
É também um livro que levanta questões difíceis.
O que transforma uma vítima em alguém capaz de ferir outra pessoa?
Até onde o trauma pode influenciar nossas escolhas?
Qual é a responsabilidade de quem trata uma criança traumatizada?
Quais são os limites éticos da ciência?
E existe realmente uma maneira de romper um ciclo de violência?
Para mim, essas perguntas são justamente aquilo que faz o livro permanecer na cabeça depois que a leitura termina.
E talvez seja esse o maior mérito de um thriller: não apenas fazer você querer descobrir quem é o assassino, mas fazer você terminar o livro ainda pensando sobre aquilo que acabou de ler.
O Sorriso da Hiena fez isso comigo.
E, apesar de eu continuar achando que aquele final poderia ter sido diferente, foi uma experiência de leitura excelente e um livro que, inclusive, me trouxe reflexões muito interessantes para a minha própria prática terapêutica.


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