“O objetivo da terapia não é consertar o passado, mas permitir que o paciente enfrente a sua própria história e sinta a sua dor.”
É a partir dessa ideia que comecei a pensar em A Paciente Silenciosa, um thriller que me prendeu do início ao fim e que, além do mistério, apresenta uma série de questões relacionadas à terapia, à loucura, à expressão e à própria origem da maldade humana.
A narrativa começa de maneira bastante impactante. Uma mulher está diante de um corpo, em estado de choque, chorando sem sequer compreender completamente que está chorando. Essa mulher é Alicia, a protagonista da história.
Alicia atirou cinco vezes contra o marido. Depois do crime, porém, nunca mais falou uma única palavra. Nem sobre o assassinato, nem sobre qualquer outro assunto.
Seis anos se passam e Alicia continua internada em um hospital psiquiátrico. Apesar da medicação e das tentativas de terapia, ninguém conseguiu fazê-la voltar a se expressar por meio da fala.
Mas Alicia encontra outra forma de expressão: a arte.
Ela é uma artista e começa a pintar quadros. Para algumas pessoas, aquelas pinturas podem não significar nada. Para outras, porém, elas parecem carregar pistas e significados capazes de revelar alguma coisa sobre o que aconteceu no dia do assassinato.
E existe um detalhe interessante nessa construção da personagem: como Alicia não fala, o autor precisa encontrar outra maneira de permitir que o leitor tenha acesso à sua personalidade e à sua história.
Essa outra porta de entrada é o diário.
Em determinados capítulos, somos apresentados aos registros escritos por Alicia. Por meio deles, começamos a conhecer sua personalidade, sua relação com o marido e os acontecimentos que antecederam o crime.
E quanto mais conhecemos aquela mulher, maior fica a nossa dúvida.
Como alguém que aparenta ser tão delicada e artística poderia ter cometido um crime tão brutal?
Alicia não apenas matou o marido. Foram cinco disparos na cabeça dele.
Ao mesmo tempo, os registros apresentam uma mulher que, aparentemente, amava o marido e mantinha com ele uma relação que, inicialmente, não parece fornecer uma explicação óbvia para tamanha violência.
É justamente essa contradição que movimenta boa parte do suspense.
O terapeuta que quer fazê-la falar
Além de Alicia, temos Theo, um terapeuta forense que decide se envolver profundamente no caso.
Theo possui, aparentemente, uma vida perfeita. É bem casado, fala muito bem da esposa e possui uma carreira consolidada. Até que entra em contato com uma das pinturas de Alicia.
A partir daquele momento, ele fica obcecado pela história da paciente e decide que vai trabalhar no hospital psiquiátrico para fazê-la falar.
A narrativa acompanha então a relação entre Alicia e Theo, enquanto também apresenta outros personagens que fazem parte daquele ambiente: o médico responsável, o chefe de Theo, a recepcionista e as enfermeiras que cuidam de Alicia.
Essa dinâmica é importante porque a história não é apresentada apenas pela perspectiva de um único personagem. Aos poucos, vamos conhecendo Alicia também através da maneira como as outras pessoas a enxergam e interpretam.
E, como estamos diante de um thriller, a imagem inicialmente construída sobre Theo também começa a se modificar.
Aquela vida perfeita que ele apresenta ao início da narrativa começa a cair por terra e percebemos que ele é uma pessoa diferente daquela que inicialmente imaginávamos.
Não necessariamente uma pessoa ruim, mas certamente alguém mais complexo.
A loucura e a tentativa de silenciar aquilo que não compreendemos
Um dos aspectos que mais me interessaram em A Paciente Silenciosa foi a maneira como o livro aborda a loucura e a forma como a sociedade lida com aquilo que não entende.
A narrativa apresenta, em alguns momentos, uma reflexão sobre a medicação e sobre a tendência de tentar controlar ou silenciar pessoas que apresentam determinados transtornos em vez de buscar compreender aquilo que está acontecendo com elas.
Essa questão ultrapassa a literatura.
Existe uma tendência humana de marginalizar aquilo que é diferente ou tentar conter aquilo que não conseguimos compreender. E, embora eu considere a medicação importante quando necessária, também acredito que a clausura não seja necessariamente a única forma de lidar com pessoas que apresentam transtornos mentais.
A convivência social, dentro das possibilidades de cada caso, também pode ser pensada de maneira diferente.
Essa foi uma reflexão que o livro despertou em mim e que considero especialmente interessante dentro da narrativa.
De onde vem a maldade?
Outro ponto que me chamou atenção foi a discussão sobre a origem da maldade.
Existe uma frase no livro que anotei durante a leitura:
“O bebê não é capaz de odiar a mãe se antes a mãe não odiá-lo.”
Essa frase abre uma discussão muito maior.
Um ser humano nasce com potencial para matar? A maldade já está presente desde o nascimento? Ou determinadas experiências e relações podem conduzir uma pessoa a comportamentos violentos?
A Paciente Silenciosa não funciona apenas como uma investigação para descobrir por que Alicia matou o marido. A história também nos coloca diante dessas perguntas sobre a formação do indivíduo e sobre aquilo que pode existir por trás de um comportamento considerado monstruoso.
Por meio do diário, começamos a conhecer a vida de Alicia com o marido. Descobrimos como ela o enxergava, como era a relação entre os dois e o que ela pensava sobre aquela vida.
E quanto mais conhecemos essa mulher, mais difícil fica conciliar a imagem que temos dela com o crime que ela cometeu.
É essa contradição que mantém a narrativa funcionando.
O silêncio como forma de expressão
Para mim, um dos elementos mais interessantes do livro é justamente o silêncio de Alicia.
Quando retiramos a voz externa de uma personagem, passamos a ter contato com suas vozes internas.
Os pensamentos mais absurdos, os pensamentos mais dolorosos e até mesmo aqueles que consideramos melhores muitas vezes nunca são verbalizados.
Nós filtramos aquilo que falamos.
Existe vergonha, medo da repreensão, necessidade de adequação social e preocupação com a maneira como seremos percebidos pelos outros.
Mas quando uma pessoa escreve apenas para si mesma, esse filtro pode desaparecer.
E é justamente isso que torna o diário de Alicia tão interessante.
Através da escrita, temos acesso a uma personagem que não precisa necessariamente se enquadrar nas expectativas sociais de quem está ao seu redor. É como se, ao perder a fala, ela ganhasse outra possibilidade de expressão.
O silêncio externo abre espaço para conhecermos aquilo que acontece internamente.
E, nesse sentido, acredito que o livro utilize muito bem o silêncio da protagonista.
Um thriller que prende do começo ao fim
Além de todas essas questões, A Paciente Silenciosa funciona muito bem como thriller.
É o tipo de livro que você começa a ler e sente vontade de avançar para o próximo capítulo porque precisa entender o que aconteceu com Alicia e o que está por trás daquela história.
Eu li o livro em dois dias e considero a narrativa muito envolvente.
Para quem tem bastante contato com o gênero, algumas possibilidades podem parecer um pouco previsíveis ao longo da leitura. Isso, porém, não prejudica a experiência.
O plot final funciona muito bem e abre espaço para uma reflexão sobre indução e sobre o quanto uma pessoa pode ser influenciada por outra.
Até que ponto podemos ser conduzidos pelas ações de alguém?
Até que ponto aquilo que acreditamos ser uma decisão completamente nossa pode ter sido construído por outra pessoa?
Essas são questões que permanecem depois do encerramento.
A Paciente Silenciosa também foi uma leitura especialmente interessante para mim porque reúne elementos que já fazem parte dos temas que gosto de observar: terapia, comportamento humano, expressão, loucura e as possíveis origens da violência.
É uma narrativa que consegue utilizar o suspense para conduzir o leitor por questões muito maiores.
E talvez o aspecto mais interessante seja justamente esse: enquanto tentamos descobrir por que Alicia matou o marido e por que ela nunca mais falou, também somos obrigados a pensar sobre o que existe dentro de uma pessoa que não conseguimos enxergar.
O silêncio de Alicia não significa ausência de comunicação.
Pelo contrário.
É justamente quando ela deixa de falar que começamos a prestar atenção em tudo aquilo que ela encontra para dizer.


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