Judas em The Chosen: quando amar alguém não basta para aceitar quem ele é.

Judas Iscariotes é um dos personagens mais conhecidos da história cristã. Sua presença nos Evangelhos está inevitavelmente associada à traição de Jesus, mas a série The Chosen permite olhar para esse personagem a partir de uma perspectiva menos imediata: e se Judas não tivesse traído Jesus por falta de amor, de fé ou de crença em sua identidade como Messias?

A série explora uma possibilidade discutida entre teólogos: Judas poderia acreditar verdadeiramente que Jesus era o Messias, mas não aceitar o tipo de Messias que Jesus escolheu ser.

Essa diferença muda completamente a maneira de observar o personagem.

Em vez de simplesmente enxergar Judas como aquele que não acreditou, podemos enxergá-lo como alguém que acreditou — mas cuja fé estava condicionada às próprias expectativas.

E talvez seja justamente aí que esteja a dimensão mais humana do personagem.

O Messias que Judas esperava

Na construção apresentada pela série, Judas testemunhou os feitos de Jesus. Ele viu aquilo que Jesus realizava e desenvolveu com ele uma relação de amizade e admiração.

Jesus era, para Judas, mestre e Messias.

O problema estava naquilo que Judas esperava que um Messias fosse.

Sua expectativa estava relacionada a uma figura semelhante à imagem de um rei guerreiro, alguém que enfrentaria os romanos, libertaria Israel da opressão política e estabeleceria uma nova ordem.

Jesus, entretanto, aparece como exatamente o oposto dessa expectativa.

Seu discurso não está centrado em uma revolução militar ou política. Ele fala sobre transformação, mudança de pensamento, amor, paz e sobre uma forma diferente de compreender as leis e a relação entre as pessoas.

Judas queria uma transformação política.

Jesus apresentava uma transformação muito mais profunda.

E essa diferença parece ser justamente o ponto de ruptura entre os dois.

Judas sabia quem Jesus era, mas não aceitava completamente aquilo que Jesus estava fazendo.

Ele queria mais.

Queria que Jesus correspondesse à imagem que havia construído em sua própria mente.

E é aí que a história da traição começa a adquirir uma dimensão diferente.

A traição como tentativa de controle

Dentro dessa interpretação, Judas não entrega Jesus porque deixou de acreditar nele.

Ele o entrega porque acredita que pode provocar uma reação.

A pressão poderia fazer com que Jesus finalmente se revelasse da maneira que Judas esperava.

É uma hipótese especialmente interessante porque transforma a traição em uma tentativa de controle.

Judas não estaria simplesmente rejeitando Jesus.

Ele estaria tentando fazê-lo ser aquilo que acreditava que ele deveria ser.

E, nesse sentido, sua história ultrapassa completamente a narrativa religiosa.

Porque quantas vezes fazemos algo parecido com as pessoas que amamos?

Nem sempre traímos literalmente.

Mas podemos destruir relacionamentos.

Podemos destruir amizades.

Podemos destruir relações familiares.

Podemos destruir vínculos conjugais.

Tudo porque não conseguimos aceitar uma pessoa como ela realmente é.

Quando a expectativa mata o outro

Existe uma frase que considero central para compreender essa leitura de Judas: às vezes, não conseguimos amar uma pessoa pelo que ela é porque estamos apaixonados pelaquilo que esperamos que ela se torne.

Isso acontece quando percebemos potencial em alguém e começamos a construir um projeto para aquela pessoa.

Esperamos que um filho seja de determinada maneira.

Esperamos que um cônjuge tome determinadas decisões.

Esperamos que um amigo corresponda à imagem que criamos dele.

Esperamos que uma pessoa tenha os mesmos objetivos que nós.

E, quando ela não corresponde, surge a frustração.

O problema é que a outra pessoa nunca assinou um contrato para viver de acordo com nossas expectativas.

Ela possui seus próprios desejos, sua própria personalidade, seus próprios propósitos e seu próprio caminho.

Judas parece não conseguir lidar com essa diferença.

Ele acredita em Jesus, mas não consegue aceitar Jesus para além daquilo que espera dele.

E essa talvez seja uma das características mais trágicas do personagem.

A morte que não precisa ser física

A história de Judas termina, segundo a narrativa cristã, com sua própria morte.

Mas existe outra forma de morte presente nessa reflexão.

Podemos matar uma relação sem matar fisicamente uma pessoa.

Podemos matar uma amizade.

Podemos matar um casamento.

Podemos matar a possibilidade de construir uma relação saudável com um filho.

Podemos, inclusive, contribuir para que a saúde mental de alguém seja destruída quando insistimos constantemente para que essa pessoa seja aquilo que queremos que ela seja.

É uma espécie de morte filosófica, emocional ou psicológica.

A pessoa continua existindo, mas aquilo que havia entre vocês deixa de existir.

E talvez seja essa uma das maiores forças simbólicas da história de Judas: mostrar até onde pode chegar alguém que não consegue lidar com a própria frustração diante da autonomia do outro.

João e a experiência de amar sem expectativas

É nesse ponto que a comparação com João se torna interessante.

Na leitura apresentada pela série e pela reflexão proposta pelo personagem, João consegue vivenciar Jesus sem precisar transformá-lo completamente naquilo que esperava que ele fosse.

Ele permanece ao lado de Cristo até a crucificação.

E sua relação com Jesus passa justamente pelo amor.

Enquanto Judas parece permanecer preso à expectativa sobre aquilo que Jesus deveria ser, João consegue experimentar aquilo que Jesus efetivamente é.

Essa diferença produz duas experiências completamente distintas.

Quando convivemos com alguém a partir das nossas expectativas, não estamos necessariamente conhecendo aquela pessoa.

Estamos conhecendo a versão que criamos dela.

Quando conseguimos abandonar essas expectativas, começamos finalmente a perceber quem está diante de nós.

E talvez seja aí que uma relação realmente comece.

O ego diante da autonomia do outro

Essa leitura também traz uma questão bastante incômoda sobre o nosso próprio ego.

É muito fácil acreditar que sabemos o que é melhor para alguém que amamos.

Nós olhamos para uma pessoa, enxergamos suas capacidades e pensamos:

“Ela deveria fazer isso.”

“Ela deveria escolher aquilo.”

“Ela poderia ser muito mais se fizesse o que eu estou dizendo.”

Mas existe uma diferença entre desejar o bem de alguém e querer controlar a maneira como essa pessoa deve viver.

Judas parece ultrapassar essa fronteira.

Ele não quer apenas que Jesus cumpra sua missão.

Ele quer que Jesus cumpra sua missão da maneira que Judas acredita ser correta.

E talvez essa seja uma das formas mais perigosas de egoísmo dentro de uma relação: quando confundimos amor com controle.

O que Judas pode nos ensinar sobre relacionamentos?

Se tomarmos a Bíblia também como uma narrativa capaz de ensinar sobre a vida, a história de Judas ganha uma dimensão que ultrapassa a religião.

Ela nos obriga a olhar para nós mesmos.

Quantas vezes pressionamos alguém para que essa pessoa se revele da maneira que queremos?

Quantas vezes tentamos provocar uma reação porque não aceitamos a maneira como o outro está vivendo?

Quantas vezes amamos uma expectativa e não uma pessoa?

Essa é uma pergunta especialmente importante nas relações familiares.

Pais podem criar expectativas sobre os filhos.

Casais podem criar expectativas sobre seus parceiros.

Amigos podem criar expectativas sobre seus amigos.

E, quando essas expectativas se tornam mais importantes do que a própria pessoa, o relacionamento começa a deixar de ser um encontro entre dois indivíduos.

Passa a ser uma tentativa de moldar o outro.

Amar também significa aceitar que o outro não é você

Talvez a grande questão levantada pela trajetória de Judas seja justamente essa: amar alguém não significa possuir um projeto sobre essa pessoa.

O outro não existe para realizar aquilo que imaginamos.

Ele não tem obrigação de cumprir nossas expectativas.

Seu propósito não está necessariamente ligado ao propósito que nós imaginamos para ele.

E essa é uma das coisas mais difíceis de aceitar em qualquer relacionamento.

Porque aceitar o outro exige, muitas vezes, abrir mão do próprio ego.

É necessário olhar para aquela pessoa e perguntar:

Quem ela realmente é?

Não:

Quem eu gostaria que ela fosse?

Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a maneira como nos relacionamos.

Judas como um personagem sobre frustração

É justamente por isso que Judas, dentro dessa leitura de The Chosen, deixa de ser apenas o personagem associado à traição.

Ele passa a representar também a frustração de quem ama alguém, acredita nessa pessoa, enxerga seu potencial, mas não consegue aceitar que ela escolha um caminho diferente daquele que foi imaginado.

E talvez seja isso que torne sua história tão humana.

Porque não precisamos concordar com suas escolhas para reconhecer o mecanismo por trás delas.

Judas queria que Jesus fosse aquilo que ele acreditava que um Messias deveria ser.

Jesus, porém, não precisava corresponder à expectativa de Judas.

E essa é uma lição que pode ser levada para muito além da narrativa religiosa.

As pessoas que amamos não existem para cumprir nossos projetos.

Nossos filhos não existem para realizar nossos sonhos.

Nossos parceiros não existem para corresponder ao nosso ideal.

Nossos amigos não existem para confirmar nossas expectativas.

Cada pessoa possui uma história, uma personalidade e um propósito próprios.

Talvez amar verdadeiramente seja justamente conseguir enxergar tudo isso sem tentar destruir aquilo que não corresponde ao que imaginamos.

Porque, às vezes, o que mata uma relação não é a falta de amor.

É o excesso de expectativa.

E talvez Judas seja, entre tantas outras coisas, o retrato de alguém que não conseguiu aprender essa diferença.

A conversa continua

Outras leituras, novas perguntas. Compartilhe sua perspectiva com respeito a quem lê.

Comments

Deixe um comentário

EnglishenEnglishEnglish

Descubra mais sobre Refúgio Literário - Jornalismo cultural, literatura e análise de personagens.

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo