Shoto Todoroki: quando rejeitar o passado significa rejeitar uma parte de si mesmo.

Shoto Todoroki é um dos personagens de Boku no Hero Academia cuja trajetória está profundamente marcada pela relação com a própria família. Filho de Endeavor, um dos maiores heróis daquele universo, Shoto nasce de um casamento que não foi construído pelo amor, mas por um projeto.

Seu pai queria criar um herói específico.

Sua mãe possuía a individualidade do gelo.

Endeavor possuía a individualidade do fogo.

Do cruzamento dessas duas características nasce Shoto, um personagem capaz de utilizar as duas individualidades.

Ele é, literalmente, o resultado perfeito do projeto do pai.

Mas existe uma questão que torna sua história muito mais complexa: Shoto não cresceu sendo visto apenas como um filho. Ele cresceu sendo visto como um potencial.

E talvez seja justamente aí que comece o seu conflito.

Um filho transformado em projeto

Os pais de Shoto não se casaram por amor. A união tinha como objetivo produzir uma criança com determinadas características.

Entre os filhos, Shoto é considerado aquele que apresenta a combinação mais desejada.

O problema é que uma criança não é um projeto.

Quando um pai olha para o filho apenas a partir daquilo que ele pode se tornar, corre o risco de deixar de enxergar quem aquela criança já é.

Na história de Shoto, isso aparece de maneira extrema.

Endeavor não olha apenas para um filho.

Ele olha para uma possibilidade.

Para uma arma.

Para um futuro herói capaz de superar aquilo que ele próprio não conseguiu alcançar.

Enquanto isso, a mãe oferece afeto, mas também possui dificuldade em lidar com a parte de Shoto que se parece com o pai.

Ele cresce, portanto, dividido entre duas figuras parentais.

De um lado, um pai que projeta expectativas.

Do outro, uma mãe que também projeta sobre ele seus próprios conflitos.

E Shoto acaba carregando as marcas dos dois.

Quando o trauma ganha um lado do corpo

Um dos elementos mais simbólicos da trajetória de Shoto é justamente a divisão entre gelo e fogo.

A individualidade que deveria representar seu maior potencial transforma-se em símbolo de seu conflito familiar.

O lado esquerdo, associado ao fogo e ao pai, passa a ser rejeitado.

Depois de ouvir a mãe dizer que aquela parte dele era repulsiva, Shoto sofre um episódio traumático que marca profundamente sua relação com a própria identidade.

A partir daí, ele passa a rejeitar o fogo.

Mas existe uma questão importante:

Shoto não está apenas rejeitando o pai. Ele está rejeitando uma parte de si mesmo porque essa parte o lembra do pai.

E essa diferença muda completamente a leitura do personagem.

O poder que ele não queria possuir

Quando Shoto chega à academia de heróis, decide utilizar apenas o gelo.

Ele poderia utilizar o fogo.

Mas não quer.

Porque, para ele, utilizar o fogo significa se aproximar do pai.

É como se dissesse:

“Eu não quero ser como ele.”

O problema é que o fogo não pertence a Endeavor.

Pertence a Shoto.

Essa distinção parece simples, mas é uma das questões mais importantes da trajetória do personagem.

Uma característica pode ter sido herdada de alguém que nos feriu sem que isso signifique que precisamos reproduzir aquilo que essa pessoa fez.

Shoto confunde, inicialmente, essas duas coisas.

Ele associa uma característica ao homem que a possui.

E, ao rejeitar o homem, rejeita também a característica.

Quando a raiva começa a limitar o próprio potencial

Existe uma espécie de paradoxo na história de Shoto.

Ele quer ser diferente do pai.

Mas, para conseguir isso, passa a permitir que o pai continue determinando suas escolhas.

Endeavor queria que Shoto utilizasse o fogo.

Shoto decide que nunca irá utilizá-lo.

À primeira vista, isso parece uma forma de resistência.

Mas existe uma armadilha.

Se a vida de Shoto continua sendo organizada em torno daquilo que o pai queria ou não queria, então Endeavor ainda ocupa um espaço enorme dentro de sua subjetividade.

Ele deixou de obedecer ao pai, mas ainda está reagindo ao pai.

Essa é uma das dimensões mais interessantes do personagem.

Às vezes, acreditamos que estamos nos libertando de alguém quando, na verdade, continuamos tomando decisões em função dessa pessoa — apenas pelo caminho contrário.

Os pais como primeiros modelos

A relação com os pais ocupa um lugar importante na construção da personalidade.

Na infância, os cuidadores funcionam como referências fundamentais para que a criança construa sua percepção de si mesma e do mundo.

A partir dessas relações, ela recebe validação, limites, afeto e modelos de comportamento.

Quando essa relação é profundamente marcada por rupturas, rejeições ou expectativas excessivas, essas experiências podem deixar marcas que ultrapassam a infância.

Shoto cresce dentro de uma família em que sua identidade está constantemente relacionada às expectativas dos pais.

Ele não é apenas Shoto.

É o filho de Endeavor.

É o menino que possui fogo e gelo.

É o projeto de um grande herói.

É também aquele que precisa lidar com o significado que essas características carregam dentro da própria família.

Sua dificuldade não está apenas em utilizar uma habilidade.

Está em descobrir quem ele é para além daquilo que seus pais projetaram sobre ele.

O estágio do espelho e a necessidade de reconhecimento

A partir da leitura apresentada no vídeo, podemos aproximar essa trajetória do conceito lacaniano de estágio do espelho, no qual a construção da identidade passa também pela relação com o outro e pela forma como o indivíduo é reconhecido.

A criança precisa, em alguma medida, encontrar no outro uma confirmação de sua existência.

Quando essa validação é profundamente comprometida, pode surgir uma dificuldade em reconhecer a própria identidade.

No caso de Shoto, existe uma particularidade: ele recebe reconhecimento, mas esse reconhecimento está condicionado àquilo que os outros esperam que ele seja.

Ele é valorizado pelo seu potencial.

Pelo seu poder.

Pelaquilo que pode se tornar.

O desafio passa a ser descobrir se ele consegue reconhecer a si mesmo sem depender dessa expectativa.

A característica não é boa nem ruim

Talvez uma das ideias mais importantes que a trajetória de Shoto permite discutir seja a de que uma característica não possui, por si só, um caráter moral.

Ter uma característica semelhante à de alguém que nos machucou não significa tornar-se aquela pessoa.

Esse é o ponto que Shoto precisa aprender.

O fogo pertence ao pai, mas também pertence a ele.

E o fato de Endeavor ter utilizado seu próprio poder de determinada maneira não significa que Shoto precise fazer o mesmo.

Uma mesma característica pode produzir resultados completamente diferentes dependendo de quem a possui e de como ela é utilizada.

Essa percepção é fundamental para romper com a lógica da repetição.

Quando a rejeição se transforma em prisão

Existe uma espécie de herança emocional que pode atravessar gerações.

Determinados padrões familiares se repetem porque não foram elaborados.

E, quando uma pessoa cresce determinada a jamais repetir aquilo que sofreu, pode acabar organizando toda a própria vida em torno daquilo que deseja evitar.

É aí que a rejeição pode se transformar em uma nova forma de prisão.

Shoto não quer ser como o pai.

Isso é compreensível.

Mas durante muito tempo essa decisão o impede de utilizar plenamente aquilo que possui.

O pai continua controlando suas escolhas, mesmo sem estar presente em todas elas.

A libertação começa quando Shoto percebe que não precisa destruir uma parte de si para ser diferente de Endeavor.

Ele pode simplesmente escolher o que fazer com aquilo que recebeu.

O fogo também pode ser dele

Esse talvez seja um dos momentos mais importantes da trajetória de Shoto.

Ao utilizar o fogo em uma de suas lutas, ele começa a compreender que aquele poder não é propriedade do pai.

É dele.

A origem de uma característica não determina seu destino.

E essa é uma ideia que ultrapassa completamente o universo de Boku no Hero Academia.

Podemos carregar características familiares.

Podemos ter comportamentos aprendidos.

Podemos possuir talentos que lembram nossos pais.

Podemos até perceber em nós mesmos traços de pessoas que nos machucaram.

Isso não significa que precisamos repetir suas histórias.

Ter algo de alguém não significa ser alguém.

Perdão não significa convivência

É nesse momento que entra outra questão importante da análise: o perdão.

Perdoar não significa necessariamente voltar a conviver com quem nos feriu.

Também não significa dizer que aquilo que aconteceu foi correto.

O perdão pode ser compreendido como uma forma de liberar a carga emocional que mantém aquela pessoa ocupando um espaço permanente dentro de nós.

É possível estabelecer distância.

É possível não querer convivência.

É possível reconhecer o dano.

E, ainda assim, trabalhar para que a raiva e o trauma não continuem determinando nossas escolhas.

No caso de Shoto, isso aparece quando ele começa a construir uma relação diferente com sua própria história.

Ele procura a mãe.

Conversa com ela.

Começa a visitá-la.

Também decide se aproximar profissionalmente do pai, não porque concorde com tudo o que ele fez, mas porque consegue reconhecer que existem conhecimentos e experiências que pode aproveitar.

Ele começa a separar o homem de tudo aquilo que recebeu dele.

Ressignificar não é esquecer

Um dos maiores riscos quando falamos em superar traumas familiares é imaginar que ressignificar significa apagar o passado.

Não significa.

Shoto não precisa fingir que aquilo não aconteceu.

Não precisa dizer que o pai foi perfeito.

Não precisa esquecer a dor da mãe.

Não precisa negar a própria infância.

A questão é outra: o passado não precisa continuar determinando todas as escolhas do presente.

É possível reconhecer o que aconteceu e, ainda assim, escolher o que fazer com aquilo.

A característica que antes era vista como uma lembrança dolorosa pode adquirir outro significado.

O fogo deixa de ser apenas o símbolo de Endeavor.

Passa a ser parte da identidade de Shoto.

Os pais não são perfeitos — e isso não significa aceitar tudo

Existe também uma questão importante quando falamos sobre família: não existem pais perfeitos.

Pais erram.

Pais acertam.

Pais possuem seus próprios traumas, limitações e histórias.

Reconhecer essa humanidade pode ajudar a compreender a origem de determinados comportamentos.

Mas compreender não significa justificar.

É possível entender que uma pessoa foi marcada por seus próprios traumas e, ao mesmo tempo, reconhecer que ela causou sofrimento.

Essas duas coisas podem coexistir.

Shoto começa justamente a caminhar nessa direção.

Ele não precisa transformar Endeavor em um pai perfeito para reconhecer que algumas coisas podem ser aprendidas com ele.

E também não precisa apagar tudo aquilo que recebeu da família para construir uma identidade própria.

A quebra do ciclo

Talvez o aspecto mais bonito da trajetória de Shoto seja justamente a possibilidade de romper com a repetição.

Ele poderia continuar rejeitando tudo aquilo que lembrasse o pai.

Poderia continuar enxergando sua própria individualidade como uma espécie de maldição.

Poderia continuar vivendo em oposição a Endeavor.

Mas existe uma terceira possibilidade:

ser Shoto.

Nem o pai.

Nem uma cópia da mãe.

Nem o projeto que Endeavor imaginou.

Nem o resultado perfeito de um casamento construído por interesse.

Apenas Shoto.

Um indivíduo capaz de decidir o que fazer com aquilo que recebeu.

Você não é o seu trauma

É aqui que a história de Shoto encontra uma dimensão que ultrapassa a ficção.

Muitas pessoas carregam características familiares que despertam desconforto justamente porque lembram alguém que as feriu.

Às vezes, a pessoa percebe que tem o mesmo jeito de falar do pai.

O mesmo temperamento da mãe.

A mesma habilidade de alguém que marcou sua infância.

E imediatamente pensa:

“Eu não quero ser como essa pessoa.”

Mas possuir uma característica semelhante não significa possuir o mesmo caráter.

Uma habilidade pode ser utilizada de maneiras diferentes.

Um traço pode ganhar novos significados.

Uma história pode terminar de maneira diferente.

Você não é obrigado a repetir aquilo que recebeu.

O legado pode ser transformado

Shoto mostra que romper com a família não precisa significar destruir tudo aquilo que veio antes.

Algumas coisas precisam ser deixadas para trás.

Outras podem ser transformadas.

E outras podem simplesmente ganhar um novo significado.

O que foi usado para o mal por uma geração pode ser utilizado de maneira diferente pela seguinte.

É assim que um ciclo pode ser interrompido.

Não necessariamente pela negação da origem, mas pela consciência sobre ela.

Shoto não precisa negar que é filho de Endeavor para deixar de ser como Endeavor.

Ele precisa compreender que ser filho de alguém não determina quem ele será.

E talvez essa seja a maior força desse personagem.

Ele descobre que não precisa negar suas origens para construir uma identidade própria.

O fogo pode ter vindo do pai.

Mas o que Shoto fará com esse fogo é uma escolha dele.

E essa talvez seja uma das maiores lições que a trajetória do personagem pode oferecer:

as características que recebemos não determinam quem seremos. O que fazemos com aquilo que recebemos é que começa a construir a nossa própria história.

A conversa continua

Outras leituras, novas perguntas. Compartilhe sua perspectiva com respeito a quem lê.

Comments

Deixe uma resposta

EnglishenEnglishEnglish

Descubra mais sobre Refúgio Literário - Jornalismo cultural, literatura e análise de personagens.

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo