Uma Mulher no Escuro, de Raphael Montes: quando o trauma continua vivendo no presente

Uma Mulher no Escuro, de Raphael Montes, foi um dos melhores thrillers que li em 2023. Foi também o livro que me apresentou à escrita do autor e que fez com que eu conhecesse melhor uma literatura marcada por temas pesados, personagens psicologicamente complexos e narrativas que não têm medo de surpreender o leitor.

A história acompanha Vitória, uma jovem de 24 anos que, desde o início, nos é apresentada como alguém frágil, tanto psicologicamente quanto fisicamente. Essa fragilidade, porém, está diretamente relacionada à história de vida da personagem.

Quando tinha apenas quatro anos, Vitória presenciou o assassinato brutal dos pais e do irmão. O assassino poupou sua vida, mas deixou uma marca que acompanharia a personagem por muitos anos: pintou seu rosto de preto. A partir desse episódio, ele ficou conhecido como o Assassino Pichador.

Depois do trauma, Vitória tenta reconstruir a própria vida. Ela faz terapia, tem um psicanalista e mantém um círculo social extremamente restrito. Sua vida é composta por poucas pessoas: a tia-avó, sua única parente viva; o terapeuta; um amigo chamado Arroz, que ela conheceu pela internet; e um homem que aparece em seu trabalho, um café onde ela atua como garçonete, e que se torna um possível interesse amoroso.

São essas quatro pessoas que fazem parte da vida de Vitória e, principalmente, são elas que conhecem a história do seu passado.

Até que, um dia, Vitória chega em casa e encontra a porta aberta, a residência completamente revirada e uma parede pichada de preto com uma mensagem:

"Vamos brincar."

A partir desse momento, Vitória acredita que o assassino responsável pela morte de sua família voltou para aterrorizá-la.

E é justamente aqui que o thriller começa a ganhar uma característica muito interessante.

Como leitores, sabemos que existe a possibilidade de o assassino estar entre as poucas pessoas que fazem parte da vida de Vitória. Ao longo da narrativa, naturalmente começamos a desconfiar de diferentes personagens, mas existe constantemente a sensação de que uma daquelas quatro pessoas pode estar envolvida no retorno do assassino.

E essa é uma das coisas que considero mais eficientes na construção da história.

A mesma sensação de desconfiança que Vitória experimenta é transmitida ao leitor. Assim como ela começa a questionar em quem pode confiar, nós também passamos a desconfiar de todos.

O livro trabalha muito com essa ideia de confiança e, ao mesmo tempo, com a permanência do trauma.

Vitória não está simplesmente tentando descobrir quem matou sua família. Ela está tentando aprender a viver depois de algo que aconteceu quando ainda era uma criança. O passado não desapareceu. Ele continua interferindo na forma como ela se relaciona com outras pessoas, na maneira como constrói sua vida social e na forma como enxerga o próprio mundo.

É justamente essa dimensão psicológica que me chamou bastante atenção na obra.

Uma Mulher no Escuro é um thriller, mas não se limita à investigação sobre quem é o assassino. Existe também uma história sobre uma mulher tentando sobreviver às consequências de um acontecimento que marcou toda a sua existência.

Ao longo da narrativa, começamos a entender melhor o que aconteceu com a família de Vitória. Criamos hipóteses, tentamos encontrar explicações e começamos a imaginar quais poderiam ser os motivos por trás daquele crime.

Mas, no meu caso, nenhuma dessas possibilidades chegou perto da verdade.

Raphael Montes novamente demonstra não ter medo de trabalhar com assuntos pesados e polêmicos. A narrativa vai conduzindo o leitor por diferentes possibilidades até chegar a uma revelação que, para mim, foi extremamente surpreendente.

Eu leio muitos thrillers e, com o tempo, às vezes consigo descobrir o final antes de chegar às últimas páginas. Isso não significa que o livro seja ruim — pelo contrário, uma boa narrativa continua funcionando mesmo quando o leitor consegue antecipar determinado acontecimento.

Mas Uma Mulher no Escuro foi diferente.

Eu realmente não imaginava o que aconteceria.

A revelação sobre quem era o assassino e, principalmente, os motivos relacionados ao crime foram elementos que me surpreenderam muito. O plot twist funcionou para mim justamente porque eu não consegui antecipá-lo.

E talvez seja por isso que, mesmo tendo lido o livro em 2023, eu ainda tenha a história tão viva na memória.

Outro aspecto que me interessou bastante foi a maneira como o livro trabalha a relação de Vitória com o próprio trauma e com o processo de superação.

Como terapeuta, naturalmente, essa foi uma dimensão que me chamou ainda mais atenção. A presença da terapia e a relação entre terapeuta e paciente acrescentam outra camada à narrativa, ainda que essa relação também seja apresentada dentro de uma história complexa e marcada por acontecimentos bastante pesados.

O mais interessante é perceber que superar um trauma não significa simplesmente apagar aquilo que aconteceu.

O trauma continua vivo de alguma maneira. Ele aparece nas relações, na forma como a pessoa se comporta, na dificuldade de confiar e na maneira como ela constrói sua vida depois do acontecimento.

No caso de Vitória, isso fica muito evidente.

Ela tenta seguir em frente, mas o passado continua interferindo no presente. Sua vida social limitada e a dificuldade de confiar nas pessoas são consequências de uma história que começou quando ela tinha apenas quatro anos.

E é justamente nesse ponto que considero Uma Mulher no Escuro uma obra que vai além do suspense.

O mistério sobre o assassino conduz a narrativa, mas existe também uma discussão sobre trauma, confiança, memória e as marcas que determinadas experiências deixam na vida de uma pessoa.

Por isso, considero Uma Mulher no Escuro um dos melhores thrillers que já li.

É uma história que me surpreendeu, que conseguiu me manter desconfiada dos personagens e que apresentou um desfecho que eu realmente não esperava.

Para quem gosta de thrillers psicológicos, é uma leitura que recomendo muito.

Foi um livro que li em 2023, mas que permaneceu comigo até hoje. E, para mim, quando uma história consegue continuar tão viva na memória mesmo depois de anos, isso diz muito sobre o impacto que aquela leitura teve.

Uma Mulher no Escuro é, portanto, uma história sobre um crime, mas também sobre aquilo que permanece depois dele: o trauma, a desconfiança e a tentativa de reconstruir uma vida quando o passado insiste em voltar.

A conversa continua

Outras leituras, novas perguntas. Compartilhe sua perspectiva com respeito a quem lê.

Comments

Deixe uma resposta

EnglishenEnglishEnglish

Descubra mais sobre Refúgio Literário - Jornalismo cultural, literatura e análise de personagens.

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo