De Quanta Terra Precisa o Homem?, de Liev Tolstói: um livro pequeno que faz perguntas enormes.

confesso que comprei De Quanta Terra Precisa o Homem?, de Liev Tolstói, na Amazon quase por acaso. Eu queria começar a ler alguns clássicos e, quando encontrei o livro por cerca de R$ 12 na Amazon Prime, pensei: por que não começar pelos escritores russos?]

E foi uma ótima decisão.

Eu fiquei completamente apaixonada por esse livro.

Li em apenas um dia. É uma obra muito pequena, daquelas que você consegue ler praticamente de uma sentada, mas existe uma diferença enorme entre um livro pequeno e um livro simples.

De Quanta Terra Precisa o Homem? é pequeno em extensão, mas extremamente profundo.

Tolstói reúne quatro contos que, apesar de terem sido escritos há muitos anos, abordam questões que continuam absolutamente presentes na nossa sociedade e, principalmente, na nossa humanidade.

São histórias que falam sobre aquilo que queremos, aquilo que realmente precisamos e sobre a maneira como a nossa própria mente pode nos levar a confundir essas duas coisas.

E o mais interessante é que Tolstói faz isso por meio de histórias extremamente simples.

Do que vivem os homens?

O primeiro conto é “Do que Vivem os Homens”.

A história acompanha um camponês que trabalha como sapateiro e enfrenta uma situação bastante difícil. Ele não recebe o dinheiro que esperava pelo trabalho que realizou e sabe que vai precisar voltar para casa sem dinheiro, justamente quando a família precisa comprar comida e o frio está chegando.

E existe um detalhe logo no começo da história que me chamou muito a atenção.

Sem dinheiro para levar comida para casa, ele decide beber.

Isso pode parecer apenas uma escolha daquele personagem, mas, para mim, existe uma questão muito maior por trás disso.

O índice de alcoolismo entre homens é muito alto e, em muitos casos, existe uma relação com a cobrança em torno da produtividade, do trabalho e da necessidade de prover.

Existe essa ideia de que o homem precisa produzir, precisa sustentar, precisa garantir aquilo que sua família necessita. E quando ele sente que não está conseguindo cumprir esse papel, isso pode gerar uma série de conflitos internos.

Tolstói coloca isso dentro de uma história sobre um casal que se ama, mas que também enfrenta conflitos relacionados justamente às dificuldades da vida, ao dinheiro e à necessidade de sobrevivência.

E é durante esse momento de dificuldade que o personagem encontra um homem abandonado no meio da estrada, praticamente congelando.

Ele poderia simplesmente seguir seu caminho.

Existe aquele momento de dúvida: eu levo esse homem comigo ou não levo?

Mas ele decide ajudar.

E essa decisão muda completamente o destino dele e da família.

É um conto muito bonito porque, no final, você começa a compreender que aquilo de que os homens precisam para viver vai muito além dos bens materiais.

Não que os bens materiais não sejam importantes. Eles são.

Mas existe uma questão central sobre o que realmente sustenta uma pessoa e sobre aquilo que, de fato, é necessário para viver.

Três perguntas

O segundo conto é “Três Perguntas”.

Aqui temos um rei que possui três perguntas que considera essenciais para compreender a própria vida.

Ele procura respostas em diferentes pessoas, mas não consegue encontrar aquilo que está procurando.

Então decide procurar um sábio que vive isolado na floresta.

E ali ele passa por uma situação que, inicialmente, parece completamente trivial.

Só que é justamente essa situação que acaba oferecendo as respostas que ele procurava.

É um conto curtíssimo, com poucas páginas, mas que consegue tocar em questões que continuam sendo extremamente presentes.

Qual é o momento mais importante da nossa vida?

O passado?

O presente?

O futuro?

Para o que exatamente nós estamos nos preparando?

É uma história simples, mas que faz você parar e pensar sobre a maneira como está vivendo a própria vida.

A Cafeteria de Surate

O terceiro conto foi um dos que eu mais gostei: “A Cafeteria de Surate”.

A história acontece em uma cafeteria, onde estão reunidas pessoas de diferentes religiões.

E, naturalmente, começa uma discussão sobre Deus.

Qual é o Deus verdadeiro?

Qual é a religião correta?

Qual religião está certa?

E essa discussão é extremamente atual.

Porque ainda hoje existe essa necessidade de acreditar que nós encontramos a verdade absoluta e que, consequentemente, aquilo em que o outro acredita está errado.

Cada uma daquelas pessoas acredita que possui a resposta correta.

E isso é muito interessante porque você começa a perceber que discussões que existiam há muitos anos continuam acontecendo hoje — só mudaram de lugar.

Antes, as pessoas discutiam em uma cafeteria.

Hoje, muitas dessas mesmas discussões acontecem na internet.

A diferença é que agora temos uma quantidade muito maior de pessoas participando delas.

E eu gostei muito da maneira como Tolstói conduz essa discussão.

No final do conto, existe uma definição de Deus que, em alguns aspectos, se aproxima bastante da maneira como eu própria compreendo Deus. Existe também uma aproximação interessante com algumas ideias relacionadas ao Deus de Espinosa, embora não seja exatamente a mesma concepção.

E isso tornou o conto ainda mais interessante para mim.

De Quanta Terra Precisa o Homem?

E chegamos ao último conto, que dá nome ao livro: “De Quanta Terra Precisa o Homem?”

Aqui conhecemos um homem que possui uma pequena quantidade de terra.

Mas ele quer mais.

E depois quer mais.

E depois mais ainda.

A questão é que, quanto mais ele consegue, mais ele deseja.

E é justamente aí que Tolstói coloca uma das perguntas mais interessantes de toda a obra:

De quanta terra, afinal, um homem realmente precisa?

A história acompanha o crescimento dessa ambição e mostra até onde a ganância pode levar uma pessoa.

E você acompanha o caminho desse homem até um desfecho que faz você pensar sobre a própria ideia de riqueza, de conquista e de satisfação.

Porque, em determinado momento, talvez a questão já não seja mais aquilo que ele precisa.

É aquilo que ele quer.

E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Um clássico que continua atual

Uma das coisas que mais me impressionou em De Quanta Terra Precisa o Homem? é justamente a sua atualidade.

É um livro escrito há muitos anos, por um autor russo, mas os temas continuam extremamente presentes.

Alcoolismo, necessidade de prover, relações humanas, religião, intolerância, ganância, ambição, felicidade e aquilo que realmente precisamos para viver.

Tudo isso está dentro de um livro muito pequeno.

E talvez seja justamente essa a maior força da obra.

Tolstói não precisa de centenas de páginas para fazer você pensar.

A leitura é simples, gostosa e muito acessível. Mesmo sendo um clássico, não é uma leitura pesada ou difícil.

Você consegue ler rapidamente, mas provavelmente não vai terminar tão rapidamente a reflexão que ele provoca.

Porque depois que você fecha o livro, ficam algumas perguntas.

O que eu realmente quero?

O que eu realmente preciso?

O que é importante para mim?

Quanto é suficiente?

E, principalmente, será que aquilo que estou buscando é realmente aquilo de que preciso?

Para quem gosta de livros que fazem você pensar por meio de histórias e parábolas, De Quanta Terra Precisa o Homem? é uma excelente escolha.

Eu comecei esse livro porque queria conhecer um pouco mais dos clássicos russos.

Terminei completamente apaixonada por Tolstói.

E acho que esse é um daqueles livros que vale a pena ler não apenas uma vez, mas voltar a ele em diferentes momentos da vida.

Porque talvez as perguntas continuem sendo as mesmas.

Mas as nossas respostas podem mudar.

A conversa continua

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