Inferno no Ártico, da autora nacional Cláudia Lemes, é um romance policial que mergulha o leitor em uma investigação marcada por violência, abuso, rituais religiosos e, principalmente, pela mente de um assassino em série.
A protagonista, Bárbara Castelo, é uma detetive metade brasileira, metade americana que, depois de viver no Brasil, se muda para os Estados Unidos. Bárbara carrega uma fobia extrema do escuro e é justamente para enfrentar esse medo que decide ir para Barrell, no Alasca , uma cidade que passa cerca de 65 dias do ano praticamente em completa escuridão.
A escolha do cenário não poderia ser mais adequada.
A escuridão está tão presente na narrativa que, em determinados momentos, ela parece quase um personagem. A escrita de Cláudia Lemes consegue construir uma atmosfera fria, escura e sufocante de uma maneira muito eficiente. Durante a leitura, muitas vezes tive a sensação de que não estava apenas lendo uma história, mas assistindo a um filme.
E é nesse ambiente que Bárbara conhece Bruce, o policial que será seu parceiro de investigação.
Os dois estão longe de ter uma boa relação. São pessoas muito diferentes e precisam aprender a trabalhar juntas. Bruce, inclusive, atravessa um momento bastante complicado da própria vida: está passando por um divórcio depois de ter empurrado a esposa durante uma discussão e também está afastado da filha, Morgan, de apenas oito anos.
A relação entre os dois vai sendo construída aos poucos, inclusive de uma maneira bastante curiosa. O chefe da polícia chega a estabelecer uma espécie de dinâmica para que eles se conheçam melhor, com perguntas simples sobre preferências, medos e interesses.
Ao mesmo tempo, Bárbara precisa lidar com o machismo dentro de um departamento de polícia pequeno, em uma cidade onde os comportamentos de uma comunidade interiorana estão muito presentes.
É nesse contexto que surge o verdadeiro horror da história.
Um corpo é encontrado no meio da floresta, em meio à neve. Trata-se de uma criança de oito anos, completamente carbonizada. A cena do crime apresenta elementos ritualísticos: o corpo está disposto em formato de pentagrama e existem velas pretas ao redor.
A partir daí começa a caçada pelo responsável e aquilo que inicialmente parece ser um crime isolado começa a revelar algo muito maior.
A cena da morte da criança é apresentada logo no início do livro e é narrada pela perspectiva da própria vítima. É uma passagem extremamente pesada, especialmente porque posteriormente descobrimos que existem também elementos de natureza sexual relacionados ao crime.
Por isso, é importante deixar claro: Inferno no Ártico é um livro pesado e contém cenas explícitas de violência e abuso, inclusive envolvendo crianças. Para quem possui gatilhos relacionados a esses temas, é uma leitura que exige cautela.
Por outro lado, uma coisa que considero muito interessante é que o livro não romantiza o assassino.
Você não encontra aquela tentativa de transformar o serial killer em uma figura quase fascinante ou justificável. Não existe o discurso de “ele teve uma infância difícil, então devemos entender suas atitudes”. O que encontramos é uma mente fria e cruel, inserida em um delírio religioso que torna tudo ainda mais perigoso.
E é justamente aí que a investigação ganha uma dimensão ainda maior.
Bárbara procura informações sobre o caso em um fórum policial, frequentado exclusivamente por policiais ou ex-policiais, onde os participantes discutem casos de maneira anônima.
É nesse espaço que ela descobre que os elementos encontrados na cena do crime apresentam semelhanças com os crimes de um assassino em série que atuou em Nova York anos antes e nunca foi capturado.
Esse assassino ficou conhecido como O Executor.
Seu modus operandi está relacionado aos elementos da natureza: fogo, água, terra e ar. E, conforme a investigação avança, percebemos que os assassinatos estão ligados a um sistema de crenças extremamente perturbador.
O livro aborda elementos relacionados à ayahuasca e ao satanismo teísta, além de apresentar uma estrutura religiosa dentro da qual o assassino acredita estar cumprindo uma missão.
Ele não está simplesmente matando.
Dentro do delírio religioso em que está inserido, acredita estar cumprindo um ciclo. São treze assassinatos, cada um relacionado a um demônio específico, até chegar ao que seria a invocação final.
E isso torna a investigação ainda mais angustiante, porque fica claro que, enquanto Bárbara tenta compreender o primeiro assassinato, existe uma possibilidade muito concreta de que outras vítimas ainda estejam por vir.
Conforme a história avança, outros crimes acontecem e a investigação começa a atingir pessoas cada vez mais próximas da própria polícia.
Também temos alguns momentos em que o livro nos permite enxergar um pouco da perspectiva do assassino. São cenas pontuais, mas suficientes para que o leitor tenha contato com sua forma de pensar e compreenda um pouco mais da sua psiquê.
E essa foi uma das coisas que mais me interessaram na leitura.
Porque, paralelamente à investigação do assassino, o livro também vai revelando os traumas de Bárbara.
Aos poucos, começamos a compreender por que ela tem tanto medo do escuro e o que realmente a levou a escolher justamente uma cidade em que a escuridão está tão presente.
Como psicanalista, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o fato de Bárbara ter um analista dentro da própria narrativa.
Ela conversa com ele, trabalha algumas questões do passado e é instigada a investigar determinados aspectos da própria história.
Inclusive, entrei em contato com a autora porque fiquei bastante impressionada com a maneira como essa dimensão psicológica foi construída. Descobri que Cláudia Lemes não possui formação na área, mas estuda o comportamento de serial killers há quase vinte anos.
E isso faz sentido quando você lê o livro.
Existe uma sensação de que a autora sabe exatamente sobre aquilo que está escrevendo, especialmente na construção da mente do criminoso.
Inferno no Ártico é um livro denso, mas, ao mesmo tempo, muito fácil de ler. Eu terminei as cerca de 350 páginas em apenas dois dias.
É aquele tipo de thriller em que você começa a ler e simplesmente não consegue parar.
Você quer descobrir quem é o assassino. Quer entender por que ele está fazendo aquilo. Quer saber se haverá outra vítima. Quer entender até onde aquela investigação vai chegar.
E, além da investigação, existe também uma relação interessante entre os personagens, que vai sendo desenvolvida ao longo da história.
A escrita é fluida e muito envolvente. Você não sente que está avançando pela leitura com esforço. Pelo contrário: quer continuar.
E o final também merece destaque.
Como eu leio muitos livros de suspense, existe aquela situação em que eventualmente conseguimos descobrir algumas coisas antes que o autor revele. Isso aconteceu em alguns momentos comigo durante a leitura, mas não prejudicou absolutamente nada a experiência.
Porque existe uma revelação específica no final que realmente me surpreendeu.
Eu terminei aquela parte e fiquei alguns minutos pensando:
“Meu Deus, como eu não vi isso?”
É aquele tipo de revelação que faz você olhar para trás e perceber que a informação estava ali o tempo inteiro, mas você simplesmente não conseguiu enxergá-la.
E esse é um dos maiores méritos de um bom thriller: fazer o leitor perceber que talvez estivesse procurando a resposta no lugar errado.
No geral, fiquei realmente impressionada com Inferno no Ártico.
É um livro que eu recomendo especialmente para quem gosta de thrillers policiais, investigação criminal e histórias que exploram a mente de serial killers sem romantizar a figura do assassino.
Mas reforço: é uma leitura pesada. As cenas de violência e abuso são explícitas e podem ser extremamente desconfortáveis para alguns leitores.
Para quem consegue lidar com esse tipo de conteúdo, porém, Inferno no Ártico entrega uma investigação envolvente, uma atmosfera muito bem construída, personagens interessantes e uma narrativa que faz você querer descobrir o que vai acontecer até a última página.
Eu fiquei tão impressionada com a escrita de Cláudia Lemes que, com certeza, quero ler outros livros da autora.
E, se você gosta de um thriller que consegue fazer você entrar completamente na atmosfera da história e terminar uma página já querendo descobrir a próxima, talvez Inferno no Ártico seja exatamente o tipo de livro que você está procurando.
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