Maria Madalena Revelada: entre a fé, o feminino e a construção histórica da mulher.

Falar sobre religião pode ser delicado. Por isso, antes de qualquer coisa, considero importante estabelecer que esta resenha não pretende ser uma afronta à fé ou à religião de ninguém. Minha intenção é partir do livro Maria Madalena Revelada, de Megan Watterson, para compreender a obra, refletir sobre sua proposta e pensar sobre a relação entre feminino, religiosidade e a forma como a mulher foi construída ao longo da história.

Megan Watterson é uma teóloga que tem como eixo de estudo a feminilidade dentro da religiosidade. Em Maria Madalena Revelada, ela parte justamente de uma figura feminina cuja imagem foi profundamente marcada pelo imaginário religioso: Maria Madalena.

A principal tese apresentada pela obra é a de que Maria Madalena não era a prostituta que a tradição popular consagrou, mas uma discípula importante de Cristo, com papel significativo dentro do cristianismo primitivo.

E essa distinção é fundamental.

A prostituta que a história criou

Maria Madalena é descrita na Bíblia como pecadora, mas isso não significa que ela fosse prostituta. Existe uma diferença importante entre essas duas ideias, especialmente quando observamos o significado atribuído ao pecado naquele contexto histórico.

Naquele período, o conceito de pecado estava relacionado também àquilo que era compreendido como punição divina. Uma doença, uma condição que o indivíduo não pudesse controlar ou determinadas circunstâncias da vida poderiam ser interpretadas como consequência de um pecado.

Portanto, não sabemos qual era exatamente o pecado atribuído a Maria Madalena.

O que sabemos é que o texto bíblico não afirma que ela era prostituta.

A associação entre Maria Madalena e a prostituição ganhou força aproximadamente quinhentos anos depois de Cristo, a partir de um sermão do Papa Gregório. A partir daí, essa interpretação acabou se transformando em um mito popular, transmitido de geração em geração.

E é justamente essa construção histórica que torna a discussão tão interessante.

Porque quando uma mulher é transformada, ao longo dos séculos, em um símbolo de sexualidade e promiscuidade, isso não diz respeito apenas àquela mulher. A maneira como uma sociedade representa suas figuras femininas também influencia a maneira como essa sociedade passa a enxergar as mulheres reais.

Uma Bíblia, muitos textos e diferentes formas de compreender a fé

Outro aspecto interessante da obra é sua abordagem dos textos que ficaram fora do cânon bíblico tradicional, especialmente o chamado Evangelho de Maria Madalena.

A Bíblia não é um único livro escrito de uma só vez, mas um compilado de diferentes livros. Durante o processo de formação do cânon, determinados textos não foram incorporados à Bíblia que conhecemos atualmente.

O Evangelho de Maria Madalena é particularmente interessante porque apresenta uma perspectiva muito voltada para a interiorização da fé e para a descoberta espiritual dentro do próprio ser humano.

Essa foi uma das questões que mais me chamou atenção.

Faço aqui uma comparação que é uma reflexão minha, e não necessariamente uma afirmação da autora: quando penso no Evangelho de Maria Madalena em comparação com os textos associados a Paulo, percebo uma diferença de direcionamento. Enquanto Paulo aparece muito ligado à formação de comunidades e instituições religiosas, o Evangelho de Maria Madalena me parece mais voltado para a experiência interior da fé.

Existe uma busca pela compreensão que acontece dentro do próprio indivíduo.

Também me chamou atenção a presença da natureza e da conexão entre os seres humanos e o mundo ao redor. É um tema que particularmente me interessa e que percebo como muito significativo quando pensamos na relação entre feminino e religiosidade.

Feminilidade, patriarcado e o apagamento de uma voz feminina

A obra também apresenta uma discussão sobre feminismo e patriarcado.

É importante fazer uma distinção: quando falamos em patriarcado dentro de uma discussão bíblica ou teológica, estamos falando de uma estrutura relacionada aos patriarcas, às famílias e às tribos que compõem determinados contextos históricos da tradição bíblica.

Já o patriarcado utilizado em uma perspectiva feminista possui outro sentido: refere-se a uma estrutura na qual o masculino ocupa uma posição de predominância e o feminino é inferiorizado.

É nesse segundo sentido que a discussão se torna especialmente relevante.

Uma das reflexões que o livro provoca é a possibilidade de que a associação de Maria Madalena à promiscuidade sexual tenha contribuído para diminuir a força de sua voz.

A hipótese é incômoda: e se uma mulher que possuía uma voz relevante dentro do cristianismo primitivo tivesse sido deliberadamente colocada em uma posição de menor importância?

E se Maria Madalena tivesse sido reconhecida historicamente como uma liderança feminina?

Talvez a própria história da Igreja tivesse sido diferente.

Essa possibilidade ganha força quando pensamos em como o feminino foi representado ao longo da história religiosa. A mulher aparece frequentemente associada a extremos: a santa, a pura, a recatada; ou a pecadora, a bruxa, a promíscua.

E esses extremos continuam presentes.

A mulher entre a santa e a promíscua

Foi justamente aqui que minha reflexão pessoal começou a se aprofundar.

Quando pensamos na mulher dentro da religião, parece existir pouco espaço para o meio-termo.

Ou ela é santificada e transformada em uma figura quase angelical, ou é sexualizada e colocada no lugar da mulher que não merece respeito.

Mas nenhuma mulher é apenas uma dessas coisas.

Maria Madalena representa isso de maneira muito forte para mim. A Bíblia afirma que Jesus expulsou dela sete demônios e a apresenta como pecadora, mas não diz que seu pecado era sexual. Ainda assim, ao longo da história, sua imagem acabou sendo associada ao sexo e à prostituição.

Por que, quando falamos de uma mulher pecadora, a associação imediata precisa ser com sexualidade?

Essa é uma pergunta que considero importante.

A figura feminina parece ter sido constantemente vinculada ao corpo, ao desejo e à sexualidade. E isso continua acontecendo na sociedade contemporânea.

Não considero que a liberdade feminina deva ser medida pela quantidade de sexualidade que uma mulher consegue expressar.

Uma mulher pode usar a roupa que quiser, ter o cabelo que quiser, fazer tatuagens, viver sua sexualidade e escolher livremente como quer conduzir sua vida. Mas, quando a liberdade feminina passa a estar necessariamente vinculada à sexualidade, existe uma contradição.

Porque liberdade não deveria significar apenas a possibilidade de ser sexualizada.

Eu quero ser reconhecida pelo meu conteúdo

Essa discussão me toca particularmente porque, como mulher, eu quero ser reconhecida pela minha inteligência, pelo meu trabalho, pelos meus argumentos, pelo meu caráter e pela minha integridade.

Eu posso ser bonita. Posso gostar da minha aparência. Mas não quero que isso seja aquilo que define meu valor.

Quero ser uma pessoa interessante.

Quero que alguém olhe para mim e encontre conteúdo.

E acredito que esse seja um ponto fundamental quando falamos sobre feminilidade.

Ao longo da história, a mulher foi colocada diante de uma escolha bastante limitada: ou é a mulher para casar, recatada, delicada e submissa; ou é a mulher sexualizada, que existe principalmente como objeto de desejo.

Por que precisamos escolher entre essas duas possibilidades?

Existe um caminho no meio.

Uma mulher pode ser intelectual, profissional, mãe, esposa, solteira, religiosa, independente, sexual, não sexual, estudiosa, complexa, contraditória e humana.

Ela não precisa caber em um único personagem.

Maria Madalena como símbolo de conhecimento

Uma das coisas que mais me chamou atenção durante minha pesquisa sobre Maria Madalena foi a maneira como ela é frequentemente representada artisticamente: com um livro e um crânio.

O livro, evidentemente, pode ser associado ao conhecimento e à escrita.

Já o crânio aparece relacionado, em determinados contextos artísticos e históricos, à renovação espiritual e à ideia da morte do corpo físico diante de uma existência espiritual.

Eu gosto muito da ideia de arquétipos e, por isso, essa representação me chamou atenção.

Livro e crânio.

Conhecimento e transformação.

Pensamento e espiritualidade.

E existe algo nessa imagem que me representa.

Mas, mais do que isso, ela me faz pensar na profundidade que existe na mulher e em como essa profundidade ainda é pouco explorada.

Mesmo em uma sociedade que avançou em direitos, leis e discussões sobre feminismo, ainda existe uma dificuldade em enxergar a mulher como um ser humano complexo, pensante e digno de ser uma referência.

Ainda somos frequentemente reduzidas ao corpo.

O feminino não deveria ser reduzido à sexualidade

Essa é uma das questões que considero mais importantes levantadas por essa leitura.

Quando uma mulher é constantemente avaliada por sua aparência, seu corpo, seu cabelo, sua idade ou sua sexualidade, existe um apagamento de tudo aquilo que ela possui para oferecer além disso.

Eu gostaria que olhássemos para outras mulheres e conseguíssemos enxergar sua história, sua postura, sua experiência, seu conhecimento e aquilo que elas têm para oferecer.

Não apenas se o cabelo está bonito.

Não apenas se existe celulite.

Não apenas se determinado padrão corporal foi alcançado.

Existe uma pessoa ali.

E é justamente essa pessoa que deveria ser vista.

Por isso, para mim, o feminino que merece ser valorizado é aquele ligado ao conhecimento, à postura, à carreira, ao trabalho, à maneira como uma mulher cuida de sua família e de seus filhos, à sua integridade e à sua capacidade de pensar.

Não à forma como ela faz sexo ou deixa de fazer.

E se Maria Madalena tivesse sido reconhecida como líder?

Essa talvez seja uma das perguntas mais interessantes que o livro me deixou.

E se uma mulher tivesse sido reconhecida entre os principais discípulos?

E se Maria Madalena tivesse ocupado historicamente o lugar de liderança que, para mim, sua trajetória permite imaginar?

Talvez muitas discussões que ainda existem dentro das igrejas nem sequer existissem.

Hoje ainda vemos debates sobre se uma mulher deve falar na igreja, se pode exercer determinadas funções ou se pode ocupar posições de liderança.

Se uma mulher tivesse sido reconhecida desde o início como uma das grandes lideranças do cristianismo, talvez nossa relação com o feminino religioso fosse completamente diferente.

Também considero significativo pensar que Maria Madalena aparece associada à cidade de Magdala. Na tradição bíblica, ela é chamada de Maria de Magdala, algo que possui um peso simbólico importante porque a identificação por uma cidade estava mais frequentemente associada aos homens.

Além disso, as mulheres tiveram participação financeira no ministério de Jesus. Ou seja, estamos falando de mulheres que não estavam simplesmente à margem da história.

Ainda assim, uma dessas mulheres acabou sendo reduzida, no imaginário popular, à imagem de uma prostituta.

Isso é muito sério.

Porque a maneira como contamos uma história também molda a sociedade que vem depois dela.

A mulher que não precisa ser santa nem promíscua

Talvez essa seja a principal reflexão que Maria Madalena Revelada me deixou.

A mulher não precisa ser santa.

Mas também não precisa ser promíscua.

Ela não precisa ser colocada em um pedestal.

E também não precisa ser reduzida à sexualidade.

Ela é um ser humano.

Tem qualidades e defeitos. Tem conhecimento e ignorância. Tem acertos e erros. Tem desejos, medos, contradições e escolhas.

É justamente essa humanidade que parece desaparecer quando insistimos em construir a mulher a partir de dois extremos.

Como mulher e como cristã, eu também me percebo dentro dessa discussão.

Eu não me encontro na imagem feminina cristã que conheci durante muito tempo. Não sou aquela mulher necessariamente recatada e delicada que alguns imaginam.

Mas também não sou o objeto sexual que uma parte da sociedade parece esperar que eu seja.

Tenho pensamento próprio. Tenho pensamento crítico. Gosto de estudar a mente humana, o crime, a psicanálise e o comportamento. Tenho uma personalidade e gosto dela.

E acredito que isso também seja feminino.

Talvez seja justamente esse o ponto: permitir que as mulheres sejam reconhecidas pelo conteúdo que oferecem ao mundo.

Não pelo corpo.

Não por sua beleza.

Não por suas escolhas sexuais.

Não por seus erros.

Não pela expectativa de que sejam perfeitas.

Uma nova maneira de olhar para o feminino

Maria Madalena Revelada é, para mim, uma obra interessante justamente porque ultrapassa a discussão sobre uma personagem bíblica.

O livro abre espaço para pensar sobre teologia, história, feminismo, religião e sobre a própria construção social do feminino.

É uma leitura que recomendo para quem tem interesse por esses temas e quer compreender melhor diferentes perspectivas sobre a história da Igreja e sobre a figura de Maria Madalena.

Não concordo com absolutamente todas as questões apresentadas na obra. Existem pontos relacionados ao Evangelho de Maria Madalena que considero distantes daquilo que compreendo como cristianismo.

Mas isso não diminui a importância da reflexão.

Às vezes, um livro não precisa nos fazer concordar com tudo.

Ele precisa nos fazer pensar.

E foi isso que essa leitura fez comigo.

Talvez tenhamos que tirar a mulher do pedestal.

Mas também precisamos tirá-la da sexualidade exacerbada.

Porque mulheres são seres humanos.

E seres humanos podem oferecer coisas muito boas ao mundo — e também podem cometer erros.

Não existe a mulher santa.

Não existe a mulher promíscua.

Existe uma mulher.

E talvez seja justamente essa humanidade que precisamos voltar a enxergar.

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