Menina Má: quando a maldade nasce com o indivíduo ou é construída pelo ambiente?

Algumas histórias de terror não precisam de monstros sobrenaturais. Às vezes, o que causa mais desconforto é perceber que aquilo que parece uma criança perfeita pode esconder algo muito mais perturbador.

É a partir dessa premissa que Menina Má, de William March, constrói sua narrativa. Publicado originalmente em 1954, o livro acompanha Christine e sua filha, Rhoda, uma criança que, à primeira vista, parece ser tudo aquilo que uma mãe poderia desejar.

Rhoda é loira, usa trancinhas, é independente, educada e extremamente habilidosa na convivência com adultos. Christine enfatiza diversas vezes que a filha praticamente não lhe dá trabalho: escova os próprios dentes, faz suas atividades sozinha e sabe se comportar diante das pessoas.

É justamente essa perfeição que começa a causar estranhamento.

A criança perfeita

Christine e Rhoda acabaram de se mudar para Baltimore por causa do trabalho do pai de Rhoda, um militar que passa bastante tempo viajando.

Inicialmente, parece apenas uma mudança familiar comum. Elas convivem com os vizinhos, com as senhoras do bairro e com as pessoas que fazem parte daquela comunidade.

Até que acontece um concurso de caligrafia.

Rhoda tinha certeza absoluta de que venceria. Entretanto, quem recebe a medalha é outro menino.

Ela não consegue aceitar a derrota.

Pouco tempo depois, durante um piquenique escolar, esse menino é encontrado morto nas proximidades de um cais. A medalha que ele havia recebido desapareceu.

A partir desse momento, Christine começa a observar a filha de outra maneira.

Quando pergunta se Rhoda está triste pela morte do colega, recebe uma resposta que considero uma das mais marcantes da história:

“Mas eu não entendo porque eu tenho que ficar triste. Ele morreu, não eu.”

A frase aparece ainda no início da narrativa e já estabelece uma diferença fundamental entre Rhoda e as outras crianças.

Christine começa então a pesquisar sobre crimes cometidos por crianças. Um dos vizinhos demonstra interesse por investigação criminal, especialmente por crimes envolvendo crianças, e isso acaba servindo como ponto de partida para que ela tente compreender o comportamento da própria filha.

No começo, Christine parece querer apenas desmistificar suas suspeitas.

Conforme a história avança, entretanto, ela começa a perceber que algumas características de Rhoda aparecem justamente nos casos que está estudando.

E o leitor fica diante da pergunta central da obra: Rhoda é realmente uma criança assassina ou Christine está tirando conclusões precipitadas?

Um livro muito à frente de seu tempo

Uma das coisas que mais me interessaram na obra foi conhecer um pouco mais sobre William March.

O livro foi publicado em 1954, e o autor havia participado da Primeira Guerra Mundial. Antes de Menina Má, ele já havia escrito outros contos relacionados aos horrores da guerra, e alguns desses elementos também aparecem na obra, especialmente por meio do militarismo associado ao pai de Rhoda e de determinadas questões relacionadas à guerra.

Também achei interessante perceber como algumas características do próprio autor podem ser identificadas em personagens da obra.

March não foi um autor que alcançou grande reconhecimento popular enquanto estava vivo. Era, de certa maneira, um “autor dos autores”: escritores admiravam sua produção e seu estilo, mas ele não recebeu a mesma valorização do grande público naquele período.

Seu trabalho ganhou maior reconhecimento depois de sua morte.

Isso torna a leitura ainda mais interessante, porque estamos diante de uma obra de 1954 que apresenta discussões que continuam extremamente atuais.

O perfilamento criminal antes do FBI

Outro elemento que chamou minha atenção foi a presença do perfilamento criminal na narrativa.

Antes de ler o livro, eu acreditava que o perfilamento criminal havia começado por volta da década de 1970, com os trabalhos desenvolvidos pelo FBI.

Ao pesquisar mais sobre o assunto por causa da obra, descobri que essa história é anterior.

Um dos primeiros exemplos de elaboração de um perfil criminal está relacionado ao caso de Jack, o Estripador, em 1888, quando um médico britânico realizou uma tentativa de traçar o perfil do criminoso.

Isso me chamou muito a atenção porque Menina Má, publicado em 1954, já apresenta elementos relacionados à observação de comportamentos criminosos e à tentativa de compreender como determinados assassinos se desenvolvem.

O livro menciona inclusive assassinos fictícios e a evolução de seus comportamentos, mostrando que já existiam estudos e discussões sobre o tema muito antes da consolidação do perfilamento criminal dentro do FBI.

Para quem gosta de criminologia, esse é um dos elementos que tornam a obra especialmente interessante.


Atenção: a partir daqui, a resenha contém spoilers

A partir daqui, preciso entrar nos principais acontecimentos da trama porque são justamente eles que permitem uma análise mais profunda da obra.

Se você ainda não leu Menina Má, recomendo interromper a leitura neste ponto.

Genética ou ambiente?

Um dos grandes pontos da narrativa é a descoberta de que Christine é filha de uma assassina em série.

E isso leva diretamente a uma discussão antiga dentro da criminologia: um assassino em série nasce assim ou o ambiente contribui para que ele se torne aquilo que é?

No caso de Rhoda, a questão fica ainda mais interessante porque ela vive em uma família aparentemente estruturada.

Christine e o marido demonstram carinho pela filha. O pai é presente dentro das possibilidades de sua profissão. Existe cuidado, afeto e estabilidade.

Não estamos diante de uma criança que cresceu em um ambiente obviamente marcado por violência ou abandono.

Por isso, o fator social parece não explicar completamente o comportamento de Rhoda.

Surge então a possibilidade de uma influência genética.

Sua avó era uma assassina em série, e a obra coloca justamente essa tensão entre hereditariedade e ambiente.

É uma discussão que continua relevante dentro da criminologia: até que ponto determinados comportamentos podem estar relacionados a características individuais e até que ponto são construídos pelas experiências vividas?

O livro não transforma essa questão em uma resposta simples.

E é justamente por isso que ela funciona tão bem.

A psicanálise dentro da narrativa

Como psicanalista, uma das partes que mais me chamou atenção foram os elementos relacionados à psicanálise presentes na obra.

O livro menciona o divã e a ideia da cura pela fala, inclusive apresentando certa crítica em relação a isso.

Mas são principalmente os sonhos de Christine que me interessaram.

Os sonhos dela são extremamente vívidos e parecem revelar conteúdos que ela já conhece, mas que, por algum motivo, não consegue reconhecer conscientemente.

É como se Christine soubesse sem saber que sabe.

Determinadas informações permanecem escondidas, possivelmente relacionadas a um trauma, e acabam aparecendo por meio do inconsciente.

O sonho funciona, então, como uma passagem para aquilo que Christine não consegue elaborar conscientemente.

Ela tenta compreender racionalmente o que está acontecendo com a filha, mas seu próprio inconsciente parece estar alguns passos à frente.

E isso cria uma dimensão psicológica muito interessante para a narrativa.

A mãe diante do próprio monstro

Quando Christine finalmente compreende que Rhoda é responsável pelas mortes, surge uma das questões mais difíceis da história.

O que você faria se seu filho fosse um assassino em série?

É muito fácil dizer que denunciaria.

É fácil afirmar que uma pessoa que comete crimes precisa ser responsabilizada.

Mas o que acontece quando essa pessoa é justamente alguém que você ama?

Christine se encontra diante de uma contradição brutal.

Ela é mãe.

Ao mesmo tempo, descobre que a filha que deveria proteger é também uma pessoa capaz de matar.

Existe uma luta entre o instinto de proteção e a consciência daquilo que Rhoda representa.

E acho que essa é uma das partes mais humanas da obra.

Porque nós costumamos imaginar o crime apenas pelo ponto de vista do criminoso e da vítima.

Mas o livro também mostra aquilo que acontece com a família.

O sofrimento não termina necessariamente na vítima direta.

Existe uma outra dimensão do trauma: a família daquele criminoso também precisa lidar com aquilo que aconteceu.

Rhoda e a máscara social

Rhoda é uma personagem particularmente interessante porque possui uma máscara social muito bem construída.

Diante das outras pessoas, ela é praticamente perfeita.

Educada.

Gentil.

Angelical.

Sabe conversar com adultos.

Sabe se comportar.

É exatamente aquilo que as pessoas esperam de uma criança.

Mas essa imagem começa a se romper em situações específicas, principalmente quando alguém contraria seus desejos.

Sua raiva aparece quando ela não consegue aquilo que quer ou quando sente que precisa se proteger.

E existe uma característica importante em seu comportamento: sua motivação parece estar frequentemente relacionada à autoproteção ou à obtenção daquilo que deseja.

Na frente dos outros, ela consegue sustentar uma imagem quase impecável.

É justamente essa diferença entre aquilo que ela demonstra e aquilo que acontece internamente que torna a personagem tão perturbadora.

Id, ego e superego

A leitura também permite uma interpretação psicanalítica interessante a partir da segunda tópica de Freud.

Rhoda parece apresentar um conflito intenso entre id, ego e superego.

De um lado, existe uma criança extremamente polida, controlada e socialmente adequada.

Do outro, aparecem impulsos mais animalescos, agressivos e imediatos.

O ego parece ter dificuldade para mediar esses dois extremos.

É como se existisse uma personalidade social extremamente organizada convivendo com impulsos que escapam desse controle.

Esse desequilíbrio ajuda a construir a complexidade da personagem.

E, para mim, esses elementos psicanalíticos dão uma camada a mais à obra.

Nem toda pessoa má é psicopata

Outro personagem que considero importante é Leroy, o zelador.

Desde o início, ele é apresentado como uma pessoa desagradável, com pensamentos misóginos e machistas. Não é exatamente alguém que desperta simpatia.

Mas, conforme a história avança, Leroy começa a sentir medo de Rhoda.

E isso cria uma distinção muito interessante.

Uma pessoa pode ser ruim sem ser psicopata.

Pode existir maldade dentro de um indivíduo sem que isso signifique necessariamente que ele seja um psicopata ou um assassino em série.

Hoje existe uma tendência de utilizar a palavra “psicopata” para explicar qualquer pessoa que tenha cometido um crime brutal ou apresentado um comportamento extremamente cruel.

Mas psicopatia não pode ser determinada simplesmente porque alguém cometeu um ato horrível.

É necessária avaliação e investigação adequada.

Nesse sentido, Menina Má mostra justamente que a maldade humana é mais complexa do que simplesmente colocar uma pessoa dentro de um diagnóstico.

O que existe por trás da criança perfeita?

Talvez o aspecto mais perturbador de Rhoda seja justamente sua aparência de normalidade.

Ela não é apresentada como uma criança obviamente monstruosa.

Pelo contrário.

Ela é bonita.

Educada.

Inteligente.

Independente.

Socialmente adequada.

E talvez seja justamente isso que faça a história funcionar.

Porque o livro nos obriga a pensar em quantas vezes convivemos com pessoas sem realmente saber o que acontece dentro delas.

O próprio narrador onisciente contribui para isso. Em determinados momentos, Christine está conversando com pessoas sobre assuntos banais, fofocas do bairro ou questões cotidianas, enquanto sua mente está completamente ocupada tentando descobrir o que a filha fez.

Isso me chamou muito a atenção porque demonstra uma coisa bastante verdadeira sobre a convivência humana: uma pessoa pode estar fisicamente diante de você e, ao mesmo tempo, estar vivendo outra coisa completamente diferente dentro da própria cabeça.

Nós nunca sabemos completamente o que está acontecendo na mente de outra pessoa.

Nem mesmo quando convivemos com ela diariamente.

O luto e as vítimas indiretas

Outro ponto que considero muito interessante é a maneira como a obra aborda o luto e as consequências de um crime.

As vítimas de um assassino não são necessariamente apenas aquelas que morreram.

Existe o sofrimento das famílias.

Existe o impacto sobre quem conviveu com a vítima.

E existe também o sofrimento da família do próprio criminoso.

Para um livro escrito em 1954, considero interessante a presença dessa perspectiva.

Hoje encontramos estudos e discussões mais aprofundadas sobre os impactos psicológicos e sociais dos crimes, inclusive sobre aqueles que estão ao redor das vítimas e dos criminosos.

E alguns desses elementos já aparecem na obra.

Por isso, considero William March um autor bastante visionário para sua época.

Uma obra que incomoda porque não oferece respostas simples

Apesar de considerar Menina Má uma obra muito boa, tenho algumas ressalvas.

A primeira está relacionada à escrita.

Como é um livro de 1954, o início pode parecer um pouco maçante para o leitor contemporâneo. Foi necessário algum tempo para me acostumar com o ritmo e com a maneira de escrever do autor.

Depois de aproximadamente 20% da obra, entretanto, senti que a leitura começou a fluir muito melhor.

A segunda ressalva está relacionada ao final.

Eu não considero que tenha sido um final ruim. Pelo contrário, é interessante e funciona dentro da proposta da história.

Mas, pessoalmente, acredito que algumas coisas poderiam ter sido conduzidas de maneira diferente.

Não foi o final perfeito para mim.

Ainda assim, isso não diminui a qualidade geral da obra.

Afinal, de onde nasce a maldade?

Talvez essa seja a pergunta que permanece depois que terminamos Menina Má.

Rhoda nasceu assim?

O ambiente teve alguma participação?

Existe uma predisposição genética?

Existe alguma combinação entre características individuais e experiências?

Ou estamos diante de algo que simplesmente não conseguimos compreender completamente?

O mais interessante é que, mesmo depois de descobrir os principais acontecimentos da história, o livro continua provocando essas perguntas.

É possível terminar a leitura sabendo o que aconteceu e ainda assim continuar tentando compreender por que aconteceu.

E acredito que essa seja uma das maiores qualidades da obra.

Menina Má não é apenas uma história sobre uma criança assassina.

É uma história sobre a mente humana.

Sobre a aparência e aquilo que existe por trás dela.

Sobre família.

Sobre culpa.

Sobre proteção.

Sobre genética e ambiente.

Sobre o inconsciente.

Sobre crime.

E sobre a dificuldade de aceitar que alguém que amamos pode ser completamente diferente daquilo que imaginávamos.

Para quem gosta de criminologia, psicologia, psicanálise e histórias envolvendo assassinos em série, considero uma leitura muito válida.

Apesar da dificuldade inicial com a linguagem, depois que a narrativa engrena, ela se torna bastante envolvente. Eu consegui ler grande parte do livro em um único dia.

E talvez o mais interessante seja justamente isso: mesmo conhecendo os spoilers, a história continua funcionando porque o que prende o leitor não é apenas descobrir o que aconteceu, mas tentar compreender como uma pessoa chegou até aquilo.

No fim, Menina Má permanece como uma obra sobre uma pergunta que continua sem uma resposta simples:

a maldade nasce com o indivíduo ou é construída pelo mundo ao seu redor?

E talvez seja justamente a impossibilidade de responder definitivamente a essa pergunta que torna a história tão perturbadora.

A conversa continua

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