Poucos personagens do terror carregam uma relação tão direta entre repressão, violência e desejo de libertação quanto Carrie White. Criada por Stephen King e posteriormente levada ao cinema, Carrie é apresentada como uma adolescente tímida, isolada e constantemente submetida ao bullying. Mas compreender sua trajetória exige olhar para além da violência que ela protagoniza: é preciso voltar à família, à religião e, sobretudo, à relação com sua mãe, Margaret White.
No quadro Personagens no Divã, do canal Literary refuge, a proposta é justamente observar personagens icônicos de livros, filmes e séries a partir de uma perspectiva psicanalítica. No caso de Carrie, essa leitura passa inevitavelmente pela maneira como a repressão é construída dentro de casa e pelo modo como ela transforma a própria percepção que a personagem tem de si mesma.
Antes de Carrie, existe Margaret
Para compreender Carrie, é necessário compreender Margaret.
Os pais de Carrie, Margaret e Ralph White, são apresentados como fundamentalistas religiosos. Desde o início do relacionamento, o sexo é associado ao pecado. O próprio desejo sexual é tratado como algo moralmente condenável, inclusive dentro do casamento.
Depois de uma primeira gravidez interrompida por um aborto espontâneo, Margaret ouve o marido afirmar que aquela gestação havia sido consequência do pecado cometido pelo casal. A partir daquele momento, sua relação com a própria sexualidade se torna ainda mais marcada pela culpa.
Anos depois, Ralph volta a procurá-la sexualmente. Margaret rejeita seus avanços, mas ele retorna bêbado e a força a manter uma relação sexual. A situação ganha uma dimensão particularmente complexa porque, durante o episódio, Margaret sente prazer.
É justamente aí que aparece uma das contradições centrais da personagem.
Para Margaret, o grande pecado não está na violência que sofreu, mas no fato de ter sentido prazer. O desejo, que é humano, passa a ser interpretado por ela como prova de corrupção moral.
Depois desse episódio, Margaret engravida de Carrie. Ralph abandona a família e posteriormente morre em um acidente de trabalho. Margaret passa então a interpretar toda a sua história a partir da lógica do pecado: o marido teria sido levado para longe pelo mal, e Carrie seria, desde a gestação, uma espécie de fruto dessa transgressão.
A filha nasce, portanto, carregando uma culpa que não é dela.
Uma infância construída em torno do pecado
Carrie cresce dentro de uma casa que funciona quase como uma igreja disfarçada de lar.
Tudo é pecado: o corpo, a aparência, a maneira de se vestir, o desejo, a sexualidade e até a vida cotidiana dos vizinhos.
O problema é que Carrie não escolheu esse sistema de crenças. Ela nasceu dentro dele.
Essa diferença é fundamental.
A religião não aparece para Carrie como uma experiência pessoal ou uma escolha espiritual, mas como uma estrutura imposta pela mãe. Margaret não ensina a filha a compreender o mundo; ensina-a a temê-lo.
O resultado é uma adolescente profundamente tímida, isolada e sem repertório para compreender a própria existência.
Ela não sabe se relacionar com outras pessoas. Não possui amigos. E, na escola, torna-se alvo constante de bullying.
A primeira cena do filme já deixa isso evidente: Carrie não consegue acompanhar as outras meninas durante uma partida de vôlei e imediatamente se torna alvo de piadas.
Mas é no episódio da menstruação que a dimensão da repressão fica ainda mais evidente.
O corpo como pecado
Carrie menstrua no banheiro da escola sem sequer saber o que está acontecendo.
Para uma adolescente criada sem qualquer educação sobre o próprio corpo, o sangue representa uma ameaça. Ela acredita que está sofrendo uma hemorragia e que pode morrer.
Em vez de receber orientação ou acolhimento, ela é ridicularizada pelas outras meninas.
A cena é particularmente cruel porque Carrie não está apenas sendo humilhada: ela está descobrindo o próprio corpo diante de pessoas que transformam sua ignorância em motivo de diversão.
Em casa, a situação não melhora.
Margaret interpreta a menstruação como consequência do pecado. O crescimento dos seios também é associado à corrupção moral. A transformação natural do corpo feminino passa a ser apresentada como uma manifestação do mal.
A mãe chega a relacionar a menstruação à maldição de Eva.
Assim, aquilo que deveria marcar uma passagem natural da adolescência para a vida adulta transforma-se, para Carrie, em motivo de vergonha e culpa.
O corpo deixa de ser apenas corpo.
Ele passa a ser, dentro daquela casa, uma prova de pecado.
A repressão também produz violência
É nesse contexto que surgem os poderes psíquicos de Carrie.
A primeira manifestação acontece justamente quando ela está submetida a uma situação extrema de humilhação e pressão emocional. Uma luz explode. Mais tarde, um objeto voa diante do diretor da escola.
Dentro da lógica sobrenatural da narrativa, Carrie possui poderes telecinéticos. Mas existe também uma possibilidade simbólica interessante.
Carrie não consegue se defender fisicamente.
Ela não consegue enfrentar a mãe, responder às colegas ou ocupar um espaço social. Sua agressividade precisa encontrar outra saída.
Nesse sentido, seus poderes podem ser interpretados como uma representação daquilo que ela não consegue expressar diretamente.
O que não pode ser dito aparece como ação.
O que não pode ser colocado em palavras aparece como ruptura.
O que não pode ser descarregado fisicamente encontra uma forma de explodir.
Essa leitura não elimina o elemento sobrenatural da história. Pelo contrário: permite observar como o fantástico pode funcionar como representação de conflitos psíquicos.
O início da libertação
Existe, entretanto, um aspecto importante na trajetória de Carrie: ela começa a questionar a narrativa da mãe.
Quando Margaret diz que a menstruação aconteceu porque Carrie pecou, a filha pergunta por que ela nunca havia sido informada sobre aquilo.
É uma pequena ruptura, mas extremamente significativa.
Carrie começa a perceber que existe algo errado.
Ela também questiona a versão da mãe sobre o pai. Enquanto Margaret acredita que forças malignas o levaram para longe, Carrie percebe que ele simplesmente abandonou a família para ficar com outra mulher.
A personagem começa, portanto, a separar aquilo que é realidade daquilo que foi construído pela mãe.
Essa separação é um dos primeiros sinais de autonomia psíquica.
O espelho quebrado
Depois de ser submetida novamente às orações e à repressão materna, Carrie se olha no espelho.
O espelho se quebra.
Simbolicamente, essa é uma das imagens mais fortes da narrativa.
O espelho pode representar a própria imagem que Carrie tem de si. Durante toda a vida, ela foi ensinada a enxergar a si mesma através do olhar da mãe: pecadora, impura, errada, culpada.
Quando o espelho se fragmenta, também podemos enxergar uma fragmentação da identidade.
Carrie já não sabe exatamente quem é.
Ela está entre duas possibilidades: continuar sendo aquilo que Margaret determinou ou descobrir quem pode ser fora daquela estrutura.
O baile e a fantasia da normalidade
A possibilidade de ir ao baile representa uma ruptura ainda maior.
Uma das meninas que participou do bullying se arrepende do que fez e tenta proporcionar a Carrie uma experiência diferente. O namorado a leva ao baile, e pela primeira vez a adolescente experimenta algo próximo de uma vida normal.
Ela se arruma.
Recebe elogios.
É beijada.
É escolhida.
Por alguns instantes, Carrie experimenta aquilo que lhe foi negado durante toda a vida: pertencimento.
Mas existe uma segunda adolescente que não demonstra arrependimento. Pelo contrário, ela transforma o baile em uma nova oportunidade de humilhar Carrie.
O plano é cruel: manipular a votação para que Carrie seja escolhida rainha e, depois, submetê-la a uma humilhação pública.
É nesse ponto que a tragédia se completa.
Quando o sangue cai sobre Carrie, ela não consegue mais perceber a realidade de maneira objetiva.
As pessoas que estavam ao seu redor passam a ser vistas como inimigas. Os risos tornam-se humilhação. O momento que poderia representar pertencimento transforma-se, em sua percepção, em uma repetição de tudo aquilo que sofreu.
A realidade e a fantasia se misturam.
E então Carrie explode.
A violência como ponto de ruptura
Carrie utiliza seus poderes para matar as pessoas presentes no baile, inclusive o rapaz que havia tentado proporcionar a ela uma experiência diferente.
É importante que a personagem não seja transformada em uma simples vítima inocente.
Ela foi vítima de violência, repressão e bullying. Mas também se torna autora de uma violência devastadora.
Essa ambiguidade é justamente o que torna Carrie tão interessante.
A história não precisa escolher entre “ela era vítima” e “ela era monstro”.
Ela pode ser as duas coisas em momentos diferentes da narrativa.
Compreender de onde veio sua violência não significa justificá-la.
Significa tentar compreender como uma pessoa pode chegar a um ponto em que aquilo que foi acumulado durante anos encontra uma saída destrutiva.
Margaret e o último gesto de controle
Depois do massacre, Carrie volta para casa.
E encontra a mãe.
Margaret continua falando sobre pecado. Carrie já não consegue suportar aquela estrutura.
Quando a mãe tenta matá-la, fingindo inicialmente oferecer um abraço e atacando-a com uma faca, Carrie reage e mata Margaret.
Existe uma ironia particularmente cruel nessa cena: o gesto que parece ser de carinho transforma-se em violência.
Na relação entre as duas, até o amor está contaminado pela ameaça.
Margaret não consegue aceitar Carrie como um indivíduo diferente dela.
Quando a filha rompe com aquilo que a mãe considera verdade, torna-se, aos olhos de Margaret, alguém que precisa ser eliminado.
É como se tudo aquilo que não cabe dentro daquele sistema precisasse desaparecer.
A casa como símbolo da repressão
Depois de matar a mãe, Carrie é consumida junto com a casa.
Essa imagem, para mim, é uma das mais tristes da narrativa.
A casa não é apenas o lugar onde Carrie morava. Ela representa o sistema que a formou.
Foi dentro daquela casa que ela aprendeu que seu corpo era pecado, que seus desejos eram perigosos e que sua existência carregava uma culpa que nunca foi realmente dela.
Por isso, quando a casa desaba sobre Carrie, existe uma leitura simbólica poderosa: ela é literalmente engolida pelo sistema do qual tentou escapar.
Carrie passou a vida tentando se libertar daquela estrutura.
No fim, é justamente aquela estrutura que a consome.
O ciclo familiar da repressão
É impossível analisar Carrie sem voltar novamente para Margaret.
A repressão de Margaret não começou com a filha. Ela própria parece carregar uma relação profundamente problemática com a sexualidade e com o desejo.
Isso permite pensar em um ciclo familiar.
Uma geração transmite à seguinte aquilo que não conseguiu elaborar.
Margaret aprendeu que desejar era pecado. Carrie recebeu essa mesma mensagem de maneira ainda mais intensa.
É claro que isso não significa que toda pessoa criada em uma família religiosa desenvolverá esse tipo de sofrimento. O problema está na forma como a crença é utilizada para produzir culpa, medo, vergonha e controle.
Quando uma criança aprende que aquilo que existe naturalmente em seu corpo é algo sujo, ela não aprende apenas uma doutrina.
Ela aprende a rejeitar partes de si mesma.
Carrie poderia ter tido outro destino?
Essa talvez seja uma das questões mais interessantes que o personagem permite levantar.
Carrie apresenta sinais de que poderia romper com aquele ciclo.
Ela questiona a mãe.
Percebe que algumas coisas não são como Margaret diz.
Começa a experimentar o mundo fora de casa.
Descobre que pode ser aceita.
E manifesta, de diferentes maneiras, uma necessidade de libertação.
Em uma leitura psicanalítica, é justamente essa possibilidade de ruptura que torna sua trajetória ainda mais trágica.
Ela não estava completamente presa à identidade que a mãe construiu para ela.
Havia uma possibilidade de mudança.
Mas essa possibilidade não encontrou espaço suficiente para se desenvolver.
Quando a religião deixa de ser fé e se transforma em repressão
A história de Carrie também ultrapassa a ficção.
A obra permite pensar sobre pessoas que crescem em ambientes religiosos extremamente repressivos, nos quais desejos, mudanças corporais e aspectos naturais da vida são interpretados como impureza ou pecado.
É importante diferenciar religião de fanatismo e repressão.
O problema não está necessariamente na fé, mas na maneira como determinados sistemas podem utilizar a religião para controlar o indivíduo e produzir culpa.
Quando alguém passa a acreditar que é sujo, amaldiçoado ou indigno simplesmente por sentir algo humano, existe um sofrimento que precisa ser levado a sério.
É nesse ponto que a psicoterapia pode funcionar não como uma ferramenta para colocar alguém em uma nova “caixinha”, mas como um espaço de compreensão.
Terapia não é colocar alguém em uma caixa
Existe uma ideia que considero central nessa leitura de Carrie: terapia não deveria ter como objetivo transformar uma pessoa naquilo que os outros esperam que ela seja.
Não se trata de dizer:
“Você precisa ser assim.”
Ou:
“Você precisa se encaixar dessa maneira.”
O processo terapêutico pode ser justamente o contrário: compreender aquilo que foi colocado sobre nós para conseguir diferenciar o que realmente somos daquilo que aprendemos que deveríamos ser.
No caso de Carrie, esse processo poderia significar descobrir que seu corpo não era pecado, que seus desejos não a tornavam uma pessoa má e que ela não precisava carregar a culpa da história de seus pais.
Ela precisaria descobrir quem era antes que o sistema familiar decidisse por ela.
Carrie White e a necessidade de libertação
A tragédia de Carrie White não está apenas no massacre do baile.
Está no fato de que, durante toda a vida, ela foi ensinada a não existir plenamente.
Primeiro, dentro de casa.
Depois, na escola.
Sua identidade foi constantemente definida por outras pessoas.
A mãe dizia quem ela era.
As colegas diziam quem ela era.
A sociedade ao redor também contribuía para esse isolamento.
Quando finalmente encontra uma forma de reagir, sua libertação acontece de maneira destrutiva.
É justamente por isso que Carrie permanece tão poderosa como personagem.
Ela representa o ponto extremo de uma pessoa que passou tempo demais sendo reprimida.
A ficção transforma essa repressão em telecinese, sangue e destruição. Na vida real, entretanto, a sensação de estar preso em um sistema familiar, religioso, profissional ou afetivo também pode produzir a necessidade de romper, de gritar e de finalmente existir.
A diferença é que, fora da ficção, essa ruptura não precisa terminar em destruição.
Pode terminar em autoconhecimento.
Pode terminar em autonomia.
Pode terminar na construção de uma vida diferente daquela que foi determinada para nós.
Carrie não conseguiu chegar até esse lugar.
E talvez seja justamente essa a sua maior tragédia: ela tentou se libertar, mas foi consumida pelo mesmo sistema do qual passou a vida inteira tentando escapar.
A história de Carrie White permanece, assim, como uma representação perturbadora dos efeitos da repressão, da culpa e da ausência de acolhimento. Não porque explique ou justifique a violência, mas porque nos obriga a olhar para o caminho que existe antes da explosão.
E talvez essa seja a pergunta mais importante que Carrie deixa:
o que acontece quando uma pessoa passa tanto tempo sendo impedida de ser quem é que, quando finalmente consegue reagir, já não sabe mais como fazer isso sem destruir tudo ao redor inclusive a si mesma?


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